Folha do Guará

Porque votar e pedir votos para Dayse Amarilio? Por que quem trabalha pelo Guará merece continuar trabalhando

Por Henrique Machado  (Jornalista-Produtor Cultural-DJ - ex-Conselheiro de Cultura do Guará e ex-Prefeito Comunitário da QE40)


O Guará conhece de perto a política dos padrinhos. Durante anos, a Administração Regional esteve no centro de uma disputa por influência política que transformou a estrutura responsável pela gestão da cidade em uma espécie de território de grupos políticos. O período mais emblemático foi o ciclo de aproximadamente oito anos associado ao deputado Rodrigo Delmasso e ao grupo político ligado à Sara Nossa Terra.

A promessa era de que um padrinho forte significaria uma cidade forte. Mais influência em Brasília significaria mais recursos, mais obras e mais capacidade de resolver os problemas do Guará.

Na prática, a história foi bem mais contraditória. O Guará recebeu anúncios de milhões, mas também acumulou problemas de manutenção, equipamentos públicos deteriorados, serviços que deixaram a cidade e obras que demoraram anos para sair do papel.

O paradoxo daquele período pode ser resumido em uma frase: havia padrinho, havia discurso e havia milhões anunciados. O que faltava, muitas vezes, era a entrega.

A própria estrutura administrativa acabou sendo atingida por esse modelo. Em vez de uma Administração Regional fortalecida para planejar, executar e acompanhar as necessidades da cidade, consolidou-se uma estrutura fortemente dependente de decisões políticas e da articulação com outros órgãos do governo.

O resultado foi uma Administração que, em determinados momentos, tinha pouca capacidade financeira e operacional para executar diretamente aquilo que a população cobrava.

E quando a Administração Regional perde capacidade de execução, quem perde é a cidade.

Uma Administração transformada em espaço político

Durante aquele ciclo, a sucessão de administradores vinculados ao grupo político de Delmasso alimentou a percepção de que a Administração Regional havia se transformado em espaço de acomodação política.

André Brandão, Vânia Gurgel, Luis Carlos Júnior, Luciane Quintana e Roberto Nobre passaram pela administração durante esse período.

Em 2019, Delmasso anunciou que estava deixando o apadrinhamento da Administração. A declaração poderia indicar o fim de uma era.

Mas a influência política não desapareceu simplesmente com o anúncio. Luciane Quintana, que havia trabalhado no gabinete do deputado, voltou ao centro da estrutura administrativa como administradora. Posteriormente, Roberto Nobre também assumiria o cargo em um contexto político associado ao grupo.

O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre quem ocupava a cadeira de administrador. Passou a ser sobre a própria lógica de funcionamento da Administração Regional.

Quando uma estrutura pública passa a ser percebida prioritariamente como espaço de nomeações políticas, o risco é que a discussão sobre políticas públicas fique em segundo plano. E o Guará precisava exatamente do contrário.

Precisava discutir drenagem, pavimentação, parques, escolas, unidades de saúde, equipamentos esportivos, cultura, mobilidade, iluminação, limpeza e conservação. Precisava de gestão. Não de disputa por território político.

O dinheiro existia. O problema era fazê-lo chegar

Outro aspecto importante daquele período é que não se pode afirmar simplesmente que faltaram recursos. Recursos foram destinados. Delmasso chegou a divulgar mais de R$ 35 milhões em emendas para o Guará durante seus mandatos. O problema era transformar esse dinheiro em resultado.

Em determinado momento, emendas de outros parlamentares destinadas ao Guará enfrentavam dificuldades para serem executadas. Recursos precisavam ser retirados, devolvidos ou redirecionados para outros órgãos e cidades porque a estrutura local não conseguia viabilizar sua execução.

O episódio envolvendo uma emenda de R$ 1 milhão destinada por outro parlamentar é revelador. O recurso, destinado ao Guará, acabou retirado diante da impossibilidade de utilização na cidade.

É uma situação que merece reflexão. Um parlamenta consegue recurso para o Guará. O dinheiro está disponível. A necessidade existe. Mas a estrutura não consegue executar. Resultado: o dinheiro corre o risco de voltar.

É difícil encontrar exemplo mais claro da diferença entre ter recurso e ter capacidade administrativa para transformá-lo em benefício público.

E nem mesmo os recursos destinados pelo próprio grupo político estavam imunes a problemas de execução. Uma emenda de R$ 500 mil para calçadas acabou sendo devolvida por falta de acompanhamento e execução.

Ao mesmo tempo, recursos destinados à reforma de próprios públicos também foram devolvidos.

A cidade, portanto, não sofria apenas de falta de dinheiro. Sofria de falta de capacidade de transformar dinheiro em obra.

Enquanto isso, o Guará perdia serviços

Talvez um dos episódios mais simbólicos daquele período tenha sido a perda de estruturas de atendimento ao trabalhador.

O Guará perdeu a unidade da Delegacia Regional do Trabalho que funcionava na cidade havia décadas. Era um serviço utilizado por trabalhadores da região e de áreas próximas.

Para quem precisa de emprego, seguro-desemprego e atendimento relacionado ao trabalho, a existência de um serviço público próximo não é detalhe. É acesso.

Quando esse atendimento desaparece, o cidadão precisa se deslocar. É mais tempo, mais custo e mais dificuldade.

E isso acontecia justamente em um período em que a cidade discutia intensamente quem deveria controlar sua Administração Regional.

O contraste não poderia ser maior.Enquanto se discutia poder político, o cidadão perdia serviços.

O CAVE virou símbolo do abandono

Poucos lugares representam melhor a situação do Guará naquele período do que o Complexo Esportivo e de Lazer do CAVE. Durante anos, o complexo acumulou problemas de conservação.

Quadras, piscinas, estruturas esportivas e espaços culturais sofreram com a falta de manutenção adequada. O patrimônio foi se deteriorando.

E quando um patrimônio público chega ao ponto de exigir uma intervenção de grande porte, surge naturalmente a discussão sobre como recuperá-lo.

Foi nesse contexto que apareceu o projeto de concessão do CAVE à iniciativa privada A proposta previa uma ampla transformação do complexo e chegou a incluir o Teatro de Arena, um dos equipamentos culturais mais tradicionais do Guará. A comunidade reagiu.

Artistas, produtores culturais, moradores e representantes políticos passaram a questionar a inclusão do teatro na concessão. O espaço acabou retirado do projeto.

É importante separar fato de interpretação: não há base suficiente para afirmar que o CAVE tenha sido deliberadamente sucateado para ser vendido. O que os fatos permitem afirmar é que o complexo chegou deteriorado ao momento em que a concessão passou a ser apresentada como alternativa de recuperação.

E essa sequência precisa ser lembrada. Porque preservar patrimônio público antes que ele se deteriore custa menos do que recuperá-lo depois de anos de abandono.

O Teatro de Arena acabou recebendo posteriormente recursos para sua recuperação, incluindo cerca de R$ 600 mil destinados por Dayse Amarilio. O equipamento voltou a receber atenção, manutenção e investimentos.

Nesse episódio, a diferença de atuação fica evidente. Deixar deteriorar é uma decisão administrativa. Recuperar também.

Dayse não é madrinha. E esse é justamente o ponto

É aqui que a trajetória de Dayse Amarilio precisa ser analisada por outro ângulo.

Dayse não controla a Administração Regional do Guará. Não indica o administrador. Não distribui cargos na estrutura administrativa. Não transformou a Administração Regional em extensão do seu gabinete. E não reivindica para si o papel de “madrinha” política da cidade.

Pelo contrário. Quando a discussão sobre o apadrinhamento voltou ao centro do debate político do Guará, Dayse se posicionou contra esse modelo e defendeu maior participação da própria comunidade na escolha do administrador.

Essa posição ganha importância porque a Administração Regional continua vinculada a uma lógica de padrinho político.

O atual administrador é associado politicamente ao ex-deputado federal Gilvan Máximo, que não é representante distrital eleito pelo Guará e que já foi publicamente tratado como padrinho político da cidade.

A situação produz uma comparação inevitável. De um lado, um modelo no qual o parlamentar busca influência sobre a Administração Regional. Do outro, uma deputada distrital que trabalha pelo Guará sem controlar a Administração.

Dayse não precisa nomear o administrador para direcionar recursos. Não precisa controlar cargos para defender escolas. Não precisa comandar a Administração para cobrar melhorias na saúde. Não precisa ser dona do CAVE para defender o Teatro de Arena. Não precisa controlar a máquina pública para apresentar demandas dos moradores.

Esse talvez seja o principal diferencial de sua atuação.

Mais de R$ 46 milhões direcionados ao Guará

Os balanços mais recentes apresentados sobre o mandato apontam mais de R$ 46 milhões destinados ao Guará em diferentes áreas. Não se trata de um único setor.

A atuação alcança educação, saúde, esporte, cultura, infraestrutura, políticas para mulheres, sustentabilidade, assistência social e lazer.

Na educação, são mais de R$ 6,5 milhões destinados à rede pública. Os recursos foram aplicados em infraestrutura, equipamentos, materiais pedagógicos e esportivos, bibliotecas, laboratórios, espaços de informática e outras necessidades das escolas.

Na saúde, os investimentos alcançaram unidades básicas, equipamentos, materiais, qualificação profissional e ações de prevenção.

Também houve recursos e articulação relacionados ao Hospital Regional do Guará, inclusive para melhorar as condições de trabalho dos profissionais.

No esporte, os investimentos ultrapassam R$ 6 milhões. Quadras, piscinas, equipamentos e projetos comunitários entraram no radar do mandato.

A lógica também é diferente: esporte não aparece apenas como lazer, mas como ferramenta de saúde, prevenção, inclusão social e qualidade de vida.

Na cultura e no lazer, são R$ 3,52 milhões destinados a iniciativas e equipamentos. A recuperação do Teatro de Arena é um dos exemplos mais visíveis dessa atuação.

Há ainda recursos destinados às políticas para mulheres, sustentabilidade, assistência social e outras demandas específicas.

A diferença entre controlar e trabalhar

É justamente aqui que a comparação ganha força. Controlar uma Administração Regional dá poder político. Mas não necessariamente resolve os problemas da cidade.

Um deputado pode indicar administrador, influenciar cargos e participar das decisões políticas da estrutura. Mas, se a rua continuar esburacada, se o prédio público continuar deteriorado, se a obra não sair do papel e se o serviço público desaparecer, o morador continuará enfrentando o mesmo problema.

Por outro lado, um parlamentar pode não controlar absolutamente nenhum cargo na Administração Regional e, ainda assim, conseguir destinar milhões para a cidade, fiscalizar o governo, pressionar pela execução, defender equipamentos públicos e articular soluções. É exatamente essa diferença que precisa ser considerada.

Dayse não é madrinha política do Guará. E talvez seja justamente por isso que seu trabalho precise ser medido por outro critério. Não pelo número de cargos que controla. Mas pelo volume de recursos que consegue direcionar. Pelas demandas que leva ao Executivo. Pelas obras que ajuda a viabilizar. Pelos equipamentos que ajuda a recuperar. Pelas políticas públicas que consegue articular. E pela presença no cotidiano da cidade.

O Guará precisa superar a política dos padrinhos

O período de apadrinhamento deixou uma lição importante. Uma Administração Regional não deveria existir para satisfazer grupos políticos. Deveria existir para servir à população.

Não deveria ser avaliada pela quantidade de aliados acomodados em cargos. Deveria ser avaliada pela quantidade de problemas solucionados.

Não deveria ser lembrada pela quantidade de milhões anunciados. Deveria ser lembrada pelas obras entregues.

Não deveria depender de um padrinho. Deveria ter planejamento, orçamento, autonomia administrativa e capacidade de execução.

O Guará já experimentou a política do padrinho. Experimentou uma Administração fortemente vinculada a um grupo político. Experimentou grandes anúncios. Experimentou projetos que demoraram.

Experimentou equipamentos públicos deteriorados. Experimentou a perda de serviços. Experimentou recursos devolvidos ou remanejados porque não conseguiam ser executados.

E experimentou o CAVE chegar ao ponto de ser colocado no centro de uma proposta de concessão.

Agora existe outra experiência para ser observada.

A de uma parlamentar que não controla a Administração Regional, mas direciona recursos para a cidade. Que não indica o administrador, mas cobra o Executivo. Que não distribui cargos, mas articula políticas públicas. Que não reivindica ser madrinha do Guará, mas mantém a cidade como um dos principais focos de sua atuação parlamentar.

Essa diferença não elimina os problemas existentes. O Guará ainda precisa avançar em infraestrutura, mobilidade, saúde, educação, segurança, cultura, esporte, urbanização e manutenção. Mas estabelece outro parâmetro para o debate.

A política da cidade não deveria ser medida pela capacidade de controlar a máquina administrativa. Deveria ser medida pela capacidade de produzir resultados. E essa é uma discussão que interessa diretamente ao morador.

Porque, no fim, o Guará não precisa de padrinhos. Precisa de trabalho. Precisa de representantes que estejam presentes. Precisa de recursos. Precisa de fiscalização. Precisa de cobrança. Precisa de obras. Precisa de serviços. Precisa de patrimônio público preservado. Precisa de políticas públicas que saiam do papel. E precisa que quem ocupa um mandato continue sendo cobrado todos os dias pelo que entrega.

Dayse Amarilio construiu sua atuação parlamentar sem ser madrinha da Administração Regional. Seu desafio — e também sua responsabilidade — é continuar demonstrando que é possível trabalhar pelo Guará sem controlar a máquina administrativa.

Porque, no final, a cidade não precisa saber quem é o padrinho. Precisa saber quem está trabalhando por ela.

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