Groundation, Jah Live e Batidão Sonoro quebraram tudo no Teatro de Arena

Cerca de 15 mil pessoas lotaram o maior teatro de arena da América Latina para viver mais um lendário show de reggae, consolidando Guará como o grande polo do gênero no Distrito Federal.

O último domingo (14) entrou para a história da cultura do Guará. No encerramento do Festival Artes do Cerrado, uma multidão de aproximadamente 15 mil pessoas tomou conta do Teatro de Arena do Guará para celebrar uma noite inesquecível de reggae. O palco reuniu três gerações e estilos que se entrelaçam: a potência internacional da Groundation, a trajetória emblemática da Jah Live e a força comunitária do coletivo Batidão Sonoro.

O festival, realizado de 12 a 14 de setembro pelo Instituto Gera Ação, com apoio da Secretaria de Cultura, reafirmou o Guará como epicentro artístico e como a verdadeira capital do reggae no Distrito Federal.

O produtor Toni Guardieiro, responsável pelo festival, fez questão de ressaltar o significado histórico da realização: “Como produtor guaraense, nascido e criado aqui, é uma felicidade imensa poder trazer um festival desses para a cidade. Ainda mais nessa situação do Teatro de Arena, que a gente sabe muito bem quanto lutou para que ele não fosse privatizado, para que continuasse público, um espaço democrático. E nada mais democrático do que realizar um evento gratuito, trazendo um grande nome internacional e valorizando nomes locais também.”

Toni reforçou que a noite comprovou a capacidade do Guará em receber grandes atrações com organização e segurança: “Foi um evento sem ocorrências, sem brigas, sem problemas de som. O próprio administrador estava ao meu lado e ressaltou a tranquilidade da festa. Isso mostra que o Guará tem condições de receber grandes nomes com segurança e organização. Não tem para outra cidade: o Guará é o reggae, e o Teatro de Arena agora está com a cara do reggae.”

Ele também projetou o futuro do festival, com a meta de ampliar os horizontes: “A ideia é seguir com esse festival aqui, ampliando para artistas nacionais e internacionais, junto com os destaques locais. Essa é a nossa marca registrada: trazer grandes nomes de fora, mas sem deixar de lado os talentos do Guará.”

Por fim, Toni deixou um agradecimento à comunidade e uma reflexão sobre o papel do festival: “Agradeço ao público e à comunidade guaraense que sempre apoiou, sempre prestigiou. O restante do DF também pôde ver aqui como é bom curtir uma festa em segurança no Guará. Viu que é possível descentralizar a cultura do Plano Piloto. As satélites também existem e merecem viver momentos como esse.”

Groundation: espiritualidade e sofisticação sonora

Vinda diretamente da Califórnia, a banda Groundation trouxe ao público brasiliense a turnê Candle Burning, um espetáculo que mistura a essência do reggae roots jamaicano com a ousadia de elementos de jazz, dub e blues. O resultado é uma sonoridade única, marcada pela improvisação instrumental, pela densidade rítmica e por uma energia espiritual que transcende o palco.

Com quase três décadas de trajetória, o grupo consolidou-se como uma das maiores referências do reggae progressivo mundial. Seus shows são reconhecidos pela intensidade e pelo caráter quase ritualístico, em que a música não se limita ao entretenimento, mas convida à reflexão sobre temas como resistência, ancestralidade, justiça social e conexão espiritual.

A escolha do nome também carrega profundo significado. “Groundation” remete a “Grounation”, data sagrada para os rastafáris que celebra a visita do imperador etíope Haile Selassie I à Jamaica, em 1966. Esse episódio histórico fortaleceu o movimento rastafari e passou a simbolizar enraizamento, união e elevação espiritual. Ao adotar esse nome, a banda assume o compromisso de manter viva a tradição cultural e filosófica rastafari, reinterpretando-a com novas linguagens musicais.

No palco do Teatro de Arena, a Groundation entregou exatamente essa experiência: um encontro entre a sofisticação da improvisação jazzística e a cadência hipnótica do reggae roots, conduzindo o público a uma viagem sonora que é ao mesmo tempo celebração, oração e resistência.

Jah Live: 20 anos de Se Curvar Jamais

Ontem, o Teatro de Arena do Guará foi palco de um momento histórico para o reggae brasileiro: a Jah Live lançou oficialmente as comemorações dos 20 anos do álbum Se Curvar Jamais em um show magnífico, que reuniu fãs de todas as idades e celebrou duas décadas de trajetória de uma das vozes mais fortes do reggae roots nacional.

Fundada em 1998, a banda se consolidou como referência do gênero e, ao longo dos anos, ultrapassou a marca de 5 milhões de streams nas plataformas digitais. O baterista e fundador Martin Barreiro recorda o impacto do lançamento original: Esse foi o disco mais esperado, pelo público e pela banda. Ele foi lançado em uma época onde o orgânico ainda se mantinha vivo, em que as pessoas compravam discos, colecionavam encartes e levavam para os shows em busca de autógrafos. Em pouco mais de um mês já eram mais de 20 mil cópias vendidas.”

Duas décadas depois, a força do álbum continua viva nos palcos: “Hoje Se Curvar Jamais é considerado um ícone do reggae nacional, e podemos confirmar isso em nossas apresentações, com o público sempre cantando em alto e bom som.”

Entre os momentos mais marcantes da história da banda, Martin relembra o Festival Internacional de Reggae em São Paulo: “Eram mais de 100 mil pessoas na Praça Charles Miller, em frente ao Pacaembú. Um mar de gente, bandas nacionais e internacionais, e um público fervoroso. Foi uma época de grandes emoções.”

A banda também celebra sua renovação. O tecladista Herik Marcos afirma: “Para mim que já acompanhava os shows desde sempre, me adaptar com o estilo não foi nada difícil. Já admirava o trabalho muito antes de entrar. O que me motiva até hoje é a missão de transmitir uma mensagem para quem está aberto a ouvir.”

O vocalista Tribak, nova voz da Jah Live, destaca o sentimento de integrar essa história: “Me sinto muito honrado. Temos uma missão linda e árdua para cumprir dia a dia, e eu me sinto em casa com isso. Minha música preferida é Se Curvar Jamais. Essa canção traduz nossa essência: não se dobrar diante das dificuldades, manter-se firme e vibrar positivo sempre.”

Para Martin Barreiro, a trajetória da banda vai muito além da música: “A banda tem sua trajetória marcada pela missão de transmitir a mensagem através da música e principalmente por salvar vidas.”

Batidão Sonoro: a quebrada no palco

Abrindo a noite, o coletivo Batidão Sonoro levou ao Teatro de Arena a força cultural das periferias do Guará, transformando o espaço em um verdadeiro reflexo da quebrada. Seu set foi marcado por uma mistura poderosa de reggae roots, ragga e dancehall, criando uma atmosfera vibrante que envolveu o público desde os primeiros acordes. As letras, que retratam a realidade local, abordam o cotidiano urbano e os desafios sociais, mas sempre com a energia positiva da resistência e da celebração.

Mais do que um show, a apresentação do Batidão Sonoro simbolizou um ato de ocupação cultural, no qual as sonoridades das ruas ganham forma de espetáculo e se encontram com tradições que atravessam gerações. Ao unir a batida jamaicana com o tempero da periferia guaraense, o grupo reafirmou a diversidade que marca o movimento reggae na cidade. Esse caldeirão sonoro mostrou a capacidade da cena local em dialogar com o mundo sem perder a identidade da comunidade que a sustenta.

Ao colocar a quebrada no palco com tanto peso e autenticidade, o Batidão Sonoro reforçou o papel do reggae como ferramenta de expressão e resistência cultural. O coletivo não apenas animou a noite com um show enérgico, mas também deixou claro que a música do Guará é feita de muitas vozes, estilos e histórias. Assim, consolidou-se como uma das forças criativas que mantêm viva a chama do reggae na região, sempre conectada com a juventude e com a realidade social que pulsa nas ruas.

O DJ e MC Chikin Pessanha destacou a importância do festival, ressaltando a satisfação do Batidão Sonoro em se apresentar “em casa”. Segundo ele, o line-up valorizou a cena local do Guará, reunindo grupos e coletivos como o Batidão Sonoro e o Jah Live, que há mais de 20 anos disseminam a cultura do reggae, do ragga e do dancehall na cidade. Para Chuiquim, integrar a programação foi motivo de orgulho e prazer, reforçando a relevância da participação do grupo no fortalecimento da identidade musical da região. 

"Fazer parte dessa programação é um prazer pra gente, do Batidão Sonoro. Encontrar os amigos, rever os parceiros das antigas e reinaugurar o Teatro de Arena também, pra gente, é um privilégio. A produção do evento tá de parabéns. Mais uma vez, o Guará mostrando que tem uma cena musical forte, uma cena cultural pulsante, e que a gente ainda mantém o legado da cultura do reggae aqui em Brasília, no Distrito Federal e no Brasil. Todo mundo tocou bem, toda a programação foi muito legal, o grande show arrebentou mais uma vez. E é isso: que venham os próximos, sempre valorizando quem é de casa.”

Guará a Cidade do Reggae no Distrito Federal

A noite de domingo no Teatro de Arena consolidou uma identidade já conhecida: se Brasília ficou marcada como berço do rock, o Guará reafirma-se como o grande polo do reggae no Distrito Federal. Bandas, coletivos, DJs e sound systems mantêm o gênero vivo, conectado à resistência cultural e à força popular.

O Festival Artes do Cerrado terminou em festa, mas deixou gravado na memória coletiva que o Teatro de Arena é do povo. O espaço, conquistado pela comunidade, voltou a pulsar com a energia de 15 mil pessoas cantando reggae em uníssono, celebrando não apenas um festival, mas a própria identidade cultural do Guará.

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