O Conselho Tutelar desempenha um papel fundamental na proteção dos direitos das crianças e adolescentes, atuando como elo entre famílias, escolas, órgãos de segurança e a comunidade. Em bate-papo exclusivo, Paulo Mineiro, conselheiro tutelar do Guará, compartilha sua experiência, os desafios enfrentados e os avanços alcançados ao longo dos anos na região. A conversa revela como o trabalho do Conselho vai muito além da atuação em situações de crise, abrangendo prevenção, orientação e promoção de uma cultura de proteção contínua.
Durante o bate-papo, Paulo Mineiro aborda temas como a importância da articulação com a rede de proteção social, a escuta humana frente à burocracia e às legislações, e a atuação conjunta com escolas, CRAS e forças de segurança para prevenir a violência e o uso de drogas entre jovens. Ele também destaca a relevância de projetos sociais e ações solidárias, como a Cesta Solidária Maria Teresa Pessoa, que fortalecem a missão do Conselho e aproximam a comunidade do trabalho desenvolvido.
O conselheiro reforça que, embora o Conselho Tutelar enfrente limitações estruturais e desafios de integração com outros órgãos, os avanços na conscientização da comunidade e na atuação preventiva têm transformado a realidade local. Com experiência e sensibilidade, Paulo Mineiro compartilha suas esperanças de um futuro em que políticas públicas sejam planejadas a partir das necessidades de crianças e adolescentes, garantindo direitos, proteção e oportunidades para todos.
“Meu receio é que continuemos enxugando gelo. Cuidando das consequências e não das causas.”
Folha do Guará: O Conselho Tutelar é um órgão essencial na garantia dos direitos da criança e do adolescente. Na sua visão, como o papel do conselheiro evoluiu ao longo dos últimos anos no Guará e no Distrito Federal?
Paulo Mineiro: Hoje, somos mais reconhecidos como parte essencial da rede de proteção, e não apenas como quem “tira criança de casa”. Passamos a atuar mais estrategicamente, com diálogo constante com escolas, UBSs, CRAS e forças de segurança. O Conselho ainda não deixou de ser visto como um órgão punitivo, mas já é reconhecido como um agente de garantia de direitos.
Folha do Guará: Apesar dos avanços institucionais, ainda há uma grande distância entre a legislação protetiva e a realidade vivida pelas famílias. Quais são, hoje, os principais gargalos que dificultam o pleno funcionamento do Conselho Tutelar?
Paulo Mineiro: O maior gargalo ainda é a distância entre o que a lei determina e o que temos na prática. Falta estrutura, pessoal técnico e, muitas vezes, compreensão por parte de outros órgãos e da sociedade sobre o papel do Conselho Tutelar. Temos legislações muito bem elaboradas, mas sem execução plena.
Folha do Guará: Em sua experiência de atuação social, quais mudanças positivas você percebeu no relacionamento entre o Conselho Tutelar, a comunidade e os órgãos públicos?
Paulo Mineiro: Percebo uma aproximação. Hoje, a comunidade entende que pode procurar o Conselho não só em momentos de crise, mas também para orientação. A presença dos conselheiros em escolas, eventos e projetos sociais tem mudado essa percepção. Mas ainda existem muitas distorções; temos muito a caminhar, embora alguns anos atrás esse relacionamento fosse bem mais limitado.
Folha do Guará: A falta de estrutura e de recursos humanos é um desafio recorrente. Como o Conselho Tutelar do Guará tem lidado com essa limitação e quais soluções poderiam fortalecer o órgão?
Paulo Mineiro: Temos feito o possível com o que temos. O Conselho Tutelar do Guará conta com profissionais comprometidos e uma rede de apoio que, mesmo com limitações, faz diferença. Mas é urgente investir em um novo conselho tutelar para a região, em estrutura física, segurança pessoal dos conselheiros e formação continuada. Defendo, inclusive, a instalação de câmeras com áudio nos Conselhos Tutelares, garantindo transparência e proteção tanto para os conselheiros quanto para os atendidos.
Folha do Guará: Muitos problemas enfrentados pelo Conselho têm origem em vulnerabilidades sociais e econômicas das famílias. Como o conselheiro consegue equilibrar o trabalho técnico e burocrático com a escuta humana e o acolhimento necessário?
Paulo Mineiro: O segredo é lembrar que, por trás de cada caso, existe uma história. Nosso trabalho exige técnica, mas também empatia. Muitas vezes, a família que chega até nós precisa mais de escuta e orientação do que de uma medida imediata. É um exercício diário equilibrar o rigor do ECA com o olhar humano e o acolhimento que devolve dignidade às pessoas.
Folha do Guará: O enfrentamento à violência e ao uso de drogas entre jovens é uma pauta sensível. De que forma o Conselho Tutelar tem atuado, em conjunto com as escolas e outras instituições, para prevenir essas situações e garantir ambientes mais seguros?
Paulo Mineiro: Essa é uma das nossas maiores preocupações. Temos atuado junto às escolas, aos CRAS e à PMDF para mapear situações de risco e promover ações preventivas. Por isso, incentivamos projetos locais e levamos palestras às escolas sobre os perigos do uso precoce de entorpecentes e da violência escolar.
Folha do Guará: A atuação do Conselho Tutelar muitas vezes é vista apenas em momentos de crise. Como aproximar a sociedade desse trabalho e promover uma cultura de prevenção e proteção contínua?
Paulo Mineiro: A melhor forma é mostrar o Conselho Tutelar em ação. Quando a população entende que nosso papel é proteger, orientar e prevenir, muda a relação. Tenho buscado usar as redes sociais e a comunicação direta com a comunidade para mostrar o lado humano e educativo do nosso trabalho, além de defender a categoria de ataques que sofrem, principalmente por militantes políticos que normalmente desconhecem o trabalho do Conselho, situação que dificulta a aproximação com a sociedade.
Folha do Guará: Quais são os avanços mais significativos que o Conselho Tutelar do Guará alcançou nos últimos anos e que merecem ser reconhecidos pela comunidade?
Paulo Mineiro: O Guará tem sido referência em articulação com a rede. Conseguimos estreitar parcerias com escolas, ampliar o diálogo com a segurança pública e participar de campanhas educativas.
Folha do Guará: A rede de proteção social é composta por diversas instâncias: saúde, educação, assistência social, segurança pública, entre outras. Quais lacunas ainda precisam ser preenchidas para que essa rede funcione de forma realmente integrada?
Paulo Mineiro: A principal lacuna é a integração real entre os órgãos. Cada setor faz o seu melhor, mas ainda falta fluidez na comunicação e na troca de informações. Precisamos de sistemas integrados, protocolos unificados e menos burocracia para garantir que as ações cheguem a tempo. Uma criança em risco não pode esperar uma semana por um encaminhamento.
Folha do Guará: O Conselho Tutelar lida diariamente com situações de extrema complexidade emocional. Como o conselheiro se prepara — emocional e profissionalmente — para enfrentar essas realidades e manter o equilíbrio diante de tantos desafios?
Paulo Mineiro: É impossível passar ileso emocionalmente por tudo o que vivemos no dia a dia. A dor das famílias e das crianças mexe com a gente. Por isso, é essencial buscar equilíbrio espiritual, emocional e familiar. Contar com colegas de equipe, ter fé e acreditar no propósito são fundamentais. Também defendo que os conselheiros tenham acesso a acompanhamento psicológico e capacitações periódicas.
Folha do Guará: Em tempos de desinformação, ainda há muitos mitos sobre o papel do Conselho Tutelar. Quais são os principais equívocos que você percebe e como a população pode compreender melhor a função e os limites de atuação dos conselheiros?
Paulo Mineiro: Um dos maiores equívocos é achar que o Conselho “tira crianças dos pais”. Isso é falso. O Conselho não tem poder de afastar uma criança — quem faz isso é o Judiciário, com base em parecer do Ministério Público. Nosso papel é proteger, orientar e cobrar providências dos órgãos responsáveis. Outro mito é achar que o Conselho é um órgão assistencialista; na verdade, somos fiscalizadores do cumprimento dos direitos.
Folha do Guará: A atuação social e comunitária sempre foi uma marca forte do seu trabalho. De que maneira as ações solidárias, como a Cesta Solidária Maria Teresa Pessoa, complementam e fortalecem a missão do Conselho Tutelar?
Paulo Mineiro: O Projeto Cesta Solidária Maria Teresa Pessoa é algo muito pessoal e especial, pois foi criado para homenagear a minha segunda mãe, que faleceu em novembro do ano passado. Ela deixou em mim o propósito de melhorar a qualidade de vida das pessoas, mesmo com o pouco que temos. A solidariedade é uma forma prática e concreta de garantir direitos.
Folha do Guará: Quais políticas públicas você acredita que deveriam ser prioridade para garantir uma infância e adolescência mais protegidas e menos vulneráveis no Guará e no Distrito Federal?
Paulo Mineiro: Defendo como prioridade o reforço da segurança escolar, o combate às drogas dentro e fora das escolas e o fortalecimento dos Conselhos Tutelares com orçamento próprio, segurança e estrutura. Também é fundamental investir no esporte como instrumento de prevenção e desenvolvimento saudável para nossas crianças e adolescentes.
Folha do Guará: Por fim, olhando para o futuro, qual é a sua maior esperança e o seu maior receio em relação à proteção da infância e juventude no Brasil?
Paulo Mineiro: Minha maior esperança é ver o Distrito Federal reconhecendo de verdade que proteger a infância é investir no futuro. Que políticas públicas sejam pensadas a partir da criança e do adolescente, e não apenas em resposta às crises. Meu receio é que continuemos enxugando gelo — cuidando das consequências e não das causas. Mas sigo acreditando que, com união e compromisso, ainda podemos transformar realidades.


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