Tambor de Crioula celebra São Benedito na Casa da Cultura do Guará

O grupo Tambor de Crioula Flores de São Benedito celebrou neste domingo (5) o Dia de São Benedito com um ensaio especial na Casa da Cultura do Guará, reunindo música, dança, fé e tradições maranhenses em uma tarde marcada pela força da ancestralidade. O evento aconteceu das 13h às 18h e contou com a presença de moradores, admiradores da cultura popular e convidados de diferentes regiões.

Mais do que um simples ensaio, a roda se transformou em um ato de devoção e celebração coletiva, exaltando o santo da fartura, da caridade e da união. O som dos tambores ecoou pela Casa da Cultura, acompanhado das vozes e das coreiras — mulheres que dançaram com suas saias rodadas em homenagem a São Benedito, expressando no corpo a espiritualidade e a resistência cultural que caracterizam o Tambor de Crioula.

Durante a tarde, o público pôde participar da roda, conhecer mais sobre a tradição afro-brasileira e saborear comidas típicas maranhenses, símbolo da partilha e da abundância associadas ao santo.

Para Conrada, uma das coordenadoras do grupo, o encontro foi um momento de gratidão e celebração da coletividade. “O dia hoje foi só de agradecimento. Muitos amigos, o grupo Flores de São Benedito é mais do que um grupo cultural de dança — ele é um grupo que agrega amigos e simpatizantes. Como sempre, a gente traz a alegria da roda e o afeto no alimento. Hoje, sendo o dia de São Benedito, viemos agradecer esse patrono que nos fortalece, nos abre caminhos e ilumina nosso espaço”, contou.

Mesmo com parte dos integrantes ausentes por causa de outros compromissos, a roda foi intensa e cheia de energia. "Graças a Deus deu pra gente fazer nossa roda. O pessoal não queria ir embora, porque é muito contagiante esse carinho, essa conversa. A maioria são amigos antigos que chegam. Em Brasília é difícil a gente agregar grupos, as pessoas vivem muito isoladas, e esses momentos são bons porque unem todo mundo”, completou Conrada.

A celebração também teve música, culinária e confraternização, com arroz de cuxá, bobó de camarão, bolo de tapioca e bolinhos dedicados ao santo. Enquanto o tambor ecoava, jovens e amigos se reuniam ao redor, jogando dominó, curtindo o som e o churrasco preparado no local. “Servimos nossas comidas típicas e ainda curtimos as pedradas do DJ Henrique Lion. Foi uma festa linda, com muita cultura popular. A Casa da Cultura sempre nos acolhe, e no próximo mês estaremos lá novamente, com a proposta de repetir esse encontro, unindo o ensaio do tambor, a comida e o lazer, além de convidar outros grupos como o Zenga e o Zanga Lunga”, destacou Conrada.

A professora e afro empreendedora Rosimar Muanda, também integrante do grupo, ressaltou a importância simbólica do evento e do tambor como instrumento de resistência. “O nosso tambor tem esse legado de São Benedito: não deixar faltar alimento. E neste dia estamos aqui num almoço farto, com os amigos, tocando o tambor, apresentando nossos tambores e fazendo acontecer mais uma vez a cultura do tambor aqui na Casa da Cultura. Pra mim, é um dia muito especial. Eu, como maranhense, professora da comunidade do Guará e afroempreendedora, que levo a minha moda afro-brasileira por Brasília, sinto que o tambor é resistência, é uma linha do antirracismo. O tambor vem quebrando paradigmas em relação à religiosidade e ao racismo. O tambor de crioula aqui no Guará é resistência, e nós estamos resistindo, fazendo com que a comunidade valorize o nosso trabalho e reconheça o tambor de crioula como uma expressão cultural tão legítima quanto qualquer outra”, afirmou.

Presente no evento, a professora Neide Rafael, educadora reconhecida nacionalmente por sua contribuição ao ensino da história e cultura afro-brasileira e pioneira na introdução desses temas nas escolas, destacou a dimensão simbólica e educativa da celebração. “Estamos aqui no Guará, na Casa da Cultura, com pessoas ligadas diretamente à cultura, e hoje é um momento especialíssimo, porque estamos pensando no que foi São Benedito. Não é só um santo preto, mas um símbolo que traz a certeza de que a cultura — principalmente a que vem do corpo em movimento e do corpo negro — precisa ser olhada, reverenciada e valorizada. Nós temos uma cultura muitas vezes invisibilizada”, afirmou.

A educadora também ressaltou a importância da fé e da espiritualidade como pontes de humanidade e respeito. “Como um santo negro, a gente sabe que nem em todas as igrejas católicas o nosso São Benedito está presente. Mas a sua importância, a fé e a religiosidade são universais. É como diz a nossa Bíblia diária: ‘Amai ao próximo como a ti mesmo’. E que Deus esteja acima de todas as coisas. Até porque, na própria palavra ‘Deus’, existe o ‘eu’. É simplesmente isso”, completou.

Emocionada, Neide celebrou ainda o papel da Casa da Cultura como espaço de resistência e convivência. “A Casa da Cultura abrindo espaço para que a gente possa falar de São Benedito, para que o tambor de crioula toque e ressoe dentro de cada pessoa que aqui está, é um momento lindíssimo. Estou vendo crianças, idosos, matriarcas, juventude — um verdadeiro festejo de humanidade. Está tudo muito lindo. As Conradas foram magníficas, e estão aqui celebrando. Já tivemos o samba de roda e muito mais virá”, disse com alegria.

A arte-educadora Lídia Garcia também deixou sua mensagem de fé e reconhecimento ao legado do santo e das mulheres que mantêm viva essa tradição: “Salve São Benedito, salve São Benedito, nosso protetor. E salve também as rainhas, as meninas que fazem o tambor de São Benedito aqui em Brasília, trazendo essa cultura brasileira, essa cultura forte do Maranhão. Aqui, elas são, depois de Seu Teodoro, as lideranças do tambor de crioula, do tambor de São Benedito. Hoje estamos aqui, mais uma vez, reunidas para enaltecer, louvar a figura de São Benedito. Saúde para todos, proteção, e que as meninas, as mulheres do tambor de crioula de São Benedito tenham sempre sucesso e contem sempre com a nossa presença.

E emendou: É uma alegria estar aqui neste dia emblemático para nós, do Tambor de Crioula Flores de São Benedito, resistência da cultura. Hoje, na Casa da Cultura, celebramos o nosso santo protetor, São Benedito. Ele é o que rege o nosso grupo, é a nossa espiritualidade, o santo das causas impossíveis e da luta contra a fome. São Benedito nunca deixou faltar alimento para os escravizados e para os que mais precisam.”

A celebração encerrou-se com cânticos, agradecimentos e o sentimento de união entre os participantes. O ensaio especial reafirmou o compromisso do Flores de São Benedito com a preservação das tradições afro-brasileiras e o fortalecimento da identidade maranhense no Distrito Federal, unindo fé, arte e comunidade em um mesmo compasso.







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