Em meio às celebrações natalinas no Guará, no Distrito Federal, uma casa se transforma todos os anos em verdadeiro espaço de memória, fé e tradição. Ali, a família Guimarães mantém viva uma herança secular vinda do Maranhão: a montagem de um presépio com mais de 160 anos, transmitido de geração em geração e carregado de significados religiosos, culturais e afetivos.
A história chamou a atenção da reportagem, que acompanhou de perto os preparativos na residência da família. Recebida por dona Mary e por Alen Guimarães, a equipe conheceu um presépio imponente, que não se limita a representar o nascimento de Jesus, mas recria todo o percurso dos Reis Magos até Belém. O cenário inclui elementos simbólicos como paisagens desérticas e uma estrela singular: feita a partir de uma estrela-do-mar trazida do Maranhão e produzida artesanalmente pela própria família, reforçando o vínculo direto com suas origens.
Segundo Alen Guimarães, o presépio pertenceu à sua tia-avó, Mariana Guimarães, que foi diretora de um orfanato onde a tradição começou a ganhar forma. Foi ali, ainda na infância, que seu pai aprendeu a montar o presépio, atividade que se tornou parte essencial da identidade familiar. “Desde os cinco anos, esse presépio faz parte da nossa história. Ele sempre foi um símbolo de fé e de encontro das pessoas”, relata Allen. Ao longo do tempo, a montagem original — ainda maior do que a atual — passou por adaptações, mas sem perder o seu valor simbólico e espiritual.
Para Alen, o presépio vai além das imagens. “Ele representa o espírito da verdade. Lembra que Jesus escolheu nascer na simplicidade, podendo ter vindo em um palácio, mas preferiu a humildade. Sem esse significado, a gente não é ninguém”, afirma. A responsabilidade de preservar essa tradição agora segue para as próximas gerações, reafirmando o caráter hereditário e educativo do ritual.
Além do presépio secular, outro elemento chama a atenção na casa da família Guimarães: uma árvore de Natal giratória, criada há 46 anos. Dona Mary conta que a ideia surgiu de forma espontânea, durante uma gestação, quando a família decidiu inovar na decoração natalina. Utilizando materiais simples, como uma peneira e uma roda de bicicleta, o marido teve a ideia de criar uma árvore que girasse. O projeto improvisado deu tão certo que se transformou em tradição permanente. “Todo ano a gente fazia uma árvore diferente. Quando ele disse que ia fazer uma árvore giratória, foi lá e fez. E até hoje ela gira”, relembra, emocionada.
A presença dessas duas tradições — o presépio secular e a árvore giratória — transforma o Natal da família Guimarães em uma verdadeira celebração da continuidade, onde fé, criatividade e memória caminham juntas.
A tradição dos presépios e sua ressignificação do Maranhão ao Distrito Federal
Essa história particular dialoga com um contexto mais amplo da tradição dos presépios no Brasil. No Maranhão, a montagem de presépios tem origem no período colonial, trazida pelos portugueses e difundida pelas ordens religiosas, especialmente jesuítas e franciscanos. Com o tempo, a prática incorporou elementos da cultura local, como o artesanato em barro, madeira e papel machê, além de referências ao cotidiano maranhense. Em muitas regiões, o presépio se integrou às festas populares, às cantorias e até ao calendário de manifestações culturais como o Bumba Meu Boi, assumindo um caráter coletivo e identitário.
No Distrito Federal, por sua vez, a tradição chegou mais recentemente, a partir da construção de Brasília, impulsionada pela migração de trabalhadores de diversas regiões do país. Nordestinos, entre eles muitos maranhenses, trouxeram consigo seus costumes, que foram ressignificados no novo território. Assim, os presépios no DF passaram a refletir uma grande diversidade estética e cultural, mesclando tradição e contemporaneidade, tanto em espaços domésticos quanto em igrejas, praças e instituições públicas.
Ao atravessar décadas e territórios, o presépio permanece como um símbolo central do Natal cristão, preservando seu sentido de fé, simplicidade e esperança. Na casa da família Guimarães, no Guará, essa tradição ganha rosto, voz e história, mostrando que, mais do que uma decoração, o presépio é um elo vivo entre passado, presente e futuro — um testemunho de pertencimento que segue sendo renovado a cada Natal.




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