O ano de 2025 ficará registrado como um dos períodos mais sombrios da história da Feira Permanente do Guará. Fundada em 1969, construída pela força do trabalho de famílias que transformaram desemprego em sustento e identidade cultural, a feira entrou no ano já fragilizada por décadas de abandono estrutural. Mas foi em 2025 que o problema deixou de ser apenas omissão e passou a assumir contornos claros de intervenção política, conflito institucional e colapso administrativo, com o Governo do Distrito Federal ocupando papel central nesse processo.
Ao longo do ano, as chuvas escancararam aquilo que o poder público insistiu em empurrar para debaixo do tapete. Telhado deteriorado, goteiras constantes, lonas improvisadas, alagamentos, prejuízos materiais e risco à segurança de feirantes e consumidores tornaram-se rotina. Promessas feitas desde 2021 pelo governador Ibaneis Rocha — como a aplicação de poliureia nos 13 mil metros quadrados do telhado, reforma de banheiros, pisos e estruturas metálicas — não se concretizaram. O investimento anunciado de mais de R$ 1,5 milhão resultou em obras superficiais, mal executadas e ineficazes. Em 2025, mesmo com novos anúncios envolvendo a Novacap, a Vice-Governadoria, a Secretaria de Governo e a Administração Regional do Guará, nenhuma licitação saiu do papel. Enquanto outras 11 feiras do DF avançaram em reformas, o Guará permaneceu à margem, literalmente debaixo d’água.
Paralelamente ao abandono físico, o GDF aprofundou uma crise institucional sem precedentes. Ignorando o Decreto nº 38.554/2017 e a existência de uma entidade representativa legítima há quase 30 anos, a Ascofeg, o governo criou um Comitê Gestor irregular, inchado e sem respaldo legal, e passou a estimular a formação de associações paralelas, como a ASFEG e a ASPERFEG, fundadas por grupos minoritários e derrotados em processos eleitorais internos. Assembleias esvaziadas, denúncias de coerção, conflitos de interesse explícitos e decisões administrativas contraditórias marcaram o ano. A Justiça precisou intervir diversas vezes. Em janeiro, sentença da Vara Cível do Guará reconheceu a lisura da gestão da Ascofeg. Em outubro, o TJDFT suspendeu uma ordem de despejo da associação e questionou diretamente a legalidade da intervenção do GDF, exigindo a apresentação de processos administrativos que até então não vieram a público.
O cenário se agravou ainda mais no segundo semestre, quando denúncias apontaram possível desvio de finalidade de recursos arrecadados dos feirantes, atraso de salários de funcionários e risco real de colapso financeiro. Trabalhadores divulgaram notas públicas relatando descaso, insegurança e ruptura da normalidade dos serviços básicos da feira. O que deveria ser um espaço de convivência, tradição e economia popular passou a operar sob um regime informal de exceção, fruto direto da fragmentação institucional induzida pelo Estado. Em vez de cumprir a lei, nomear gerente de feira, garantir infraestrutura e dialogar com a entidade legalmente reconhecida, o GDF optou por fomentar disputas, enfraquecer a organização histórica dos feirantes e transformar um patrimônio cultural em palco de uma tragicomédia administrativa.
Ao final de 2025, a Feira do Guará segue aberta graças à resistência de seus trabalhadores, não à ação do poder público. O saldo do ano é claro: promessas não cumpridas, recursos desperdiçados, decisões ilegais, desgaste político e social e um patrimônio histórico colocado em risco. Mais do que uma sucessão de erros, 2025 revelou uma escolha. E essa escolha, aos olhos de feirantes e da comunidade guaraense, foi a de abandonar e intervir, em vez de cuidar e respeitar. A pergunta que fica para o futuro é simples e incômoda: quem será responsabilizado por esse ano em que o GDF decidiu, na prática, destruir a Feira do Guará?




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