Folha do Guará

VOCÊ CONHECE A CULTURA SOUND SYSTEM?

Da Jamaica ao Guará, os paredões de som que transformaram a música, as ruas e a resistência cultural

Muito além de grandes paredões de caixas acústicas, a cultura Sound System representa uma das mais importantes manifestações de resistência cultural, ocupação urbana e expressão musical popular do mundo contemporâneo. Nascido nas ruas de Kingston, na Jamaica, ainda no final da década de 1940, o movimento atravessou continentes e encontrou no Brasil — especialmente nas periferias urbanas — um território fértil para se reinventar, criando identidades próprias que misturam reggae, dub, dancehall, bass culture e manifestações regionais brasileiras.

A essência do Sound System surgiu como uma alternativa econômica aos shows de rhythm and blues realizados na Jamaica. Nos bairros populares de Kingston, operadores de som passaram a construir sistemas móveis compostos por amplificadores valvulados, toca-discos e enormes caixas artesanais capazes de levar música às comunidades periféricas que não tinham acesso aos clubes elitizados da época. Esses bailes rapidamente deixaram de ser apenas festas e se transformaram em verdadeiros centros culturais populares.

Inicialmente alimentados pela música americana, os sistemas jamaicanos absorveram rapidamente a identidade da ilha caribenha, incorporando o Mento, o Ska, o Rocksteady e posteriormente o Reggae, o Dub, o Dancehall e o Ragga. Com o fortalecimento da filosofia rastafari durante as décadas de 1960 e 1970, os paredões passaram a funcionar também como instrumentos de resistência política, afirmação da cultura negra e liberdade de expressão.

Enquanto as rádios jamaicanas permaneciam controladas pelas elites econômicas, os bailes de rua tornaram-se canais independentes de comunicação popular. Foi nesse ambiente que surgiram as lendárias batalhas entre equipes de som, conhecidas como Soundclashes ou clashes. Nessas disputas, os coletivos buscavam conquistar o público através da potência sonora, da seleção musical, dos graves profundos e dos famosos dubplates — versões exclusivas gravadas especialmente para determinada equipe.

A cultura Sound System acabou revolucionando não apenas o reggae jamaicano, mas toda a música mundial. O Dub, criado a partir das manipulações de eco, delay e reverberação feitas pelos operadores de som, tornou-se uma das principais bases da música eletrônica contemporânea. Além disso, o formato jamaicano influenciou diretamente o surgimento do rap, da cultura hip hop e de diversos gêneros urbanos globais.

Dentro de um Sound System tradicional existem funções muito bem definidas. O Selecta ou Selector é responsável pela pesquisa musical e pela escolha dos discos de vinil ou arquivos digitais executados durante as sessões. O operador de som controla equalizações, frequências, reverbs e delays, manipulando os graves em tempo real para criar uma experiência sonora intensa e imersiva. Já o MC — também chamado de Toaster, Mic Man ou Deejay — conduz o público, improvisa versos, canta sobre os riddims e transmite mensagens de conscientização social, resistência e positividade.

Um verdadeiro Sound System vai muito além de um simples evento ou empresa de sonorização. Trata-se de uma cultura baseada no trabalho coletivo e na engenharia sonora artesanal. As equipes constroem manualmente suas próprias caixas acústicas de madeira, desenvolvendo sistemas focados em graves profundos e frequências subgraves capazes de transformar ruas, praças e galpões em verdadeiros templos sonoros.

AS TRÊS GRANDES ESCOLAS DO SOM DE RUA NO BRASIL

No Brasil, a cultura Sound System desenvolveu características próprias e pode ser compreendida a partir de três grandes vertentes históricas que ajudaram a moldar a identidade sonora nacional.

A primeira delas são as tradicionais Radiolas do Maranhão. A partir da década de 1970, marinheiros, discos vindos do Caribe e transmissões captadas pelas ondas de rádio ajudaram o reggae jamaicano a se espalhar por São Luís. A conexão cultural foi tão intensa que a capital maranhense passou a ser conhecida internacionalmente como a Jamaica Brasileira.

As radiolas transformaram os sistemas de som em enormes paredões populares responsáveis por movimentar multidões em festas de reggae nas ruas e clubes da cidade. Diferentemente de outras regiões, o reggae maranhense desenvolveu uma forma própria de dança, marcada pelos passos em casal e pelo ritmo mais cadenciado.

Radiolas históricas como Estrela do Som, Itamaraty e Trovão Azul ajudaram a consolidar essa identidade única que permanece viva até os dias atuais.

Outra vertente fundamental são as Aparelhagens do Pará. Originadas a partir dos antigos Sonoros Paraenses dos anos 1950, essas estruturas evoluíram para verdadeiros espetáculos tecnológicos de som e imagem. As aparelhagens incorporaram enormes sistemas de iluminação, lasers, telões de LED e estruturas monumentais voltadas principalmente para gêneros como tecnobrega, melody e ritmos eletrônicos amazônicos.

Já a terceira grande escola brasileira é o chamado Sound System regular, diretamente inspirado na tradição jamaicana. Nessa vertente, o foco está na construção artesanal de caixas de madeira voltadas para graves profundos e sessões dedicadas ao Ska, Rocksteady, Reggae Roots, Dub, Dancehall e Ragga.

O SOUND SYSTEM NAS RUAS DO BRASIL

Nas últimas décadas, o movimento expandiu-se fortemente para grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. Em São Paulo, coletivos como Dubversão Sistema de Som ajudaram a consolidar o modelo jamaicano de sistemas artesanais nas ruas da capital paulista a partir dos anos 2000. A tradicional festa Java tornou-se referência nacional da cultura dub.

No Rio de Janeiro, o Digitaldubs expandiu as fronteiras do Sound System brasileiro ao conectar o dub jamaicano com o funk carioca e outras sonoridades urbanas contemporâneas.

Na Bahia, especialmente em Salvador, os sistemas de som passaram a dialogar com o pagodão baiano, os afrobeats e a bass culture, criando novas fusões sonoras nas periferias urbanas.

A presença feminina também ocupa papel central dentro do movimento brasileiro. Artistas como Lei Di Dai ajudaram a abrir espaço para mulheres no reggae e no dancehall nacional, enquanto coletivos como Feminine Hi-Fi fortalecem a participação feminina dentro da cultura reggae, dub e sound system.

GUARÁ: A CAPITAL DO REGGAE NO DISTRITO FEDERAL

No Distrito Federal, o Guará possui uma ligação histórica profunda com o reggae e com a cultura Sound System. Ainda no final da década de 1970, um grupo de jovens moradores da cidade começou a se reunir para ouvir os discos jamaicanos que explodiam mundialmente através da voz de Bob Marley e de outros grandes nomes do reggae internacional.

Movidos pela mensagem de paz, igualdade e resistência do movimento rastafari, esses jovens fundaram o histórico Sindicato do Reggae, coletivo que teria papel fundamental na popularização do reggae no Distrito Federal.

Naquele período, encontrar discos de reggae, livros e materiais culturais ligados à Jamaica era extremamente difícil em Brasília. Muitas vezes, os integrantes precisavam importar vinis e publicações do eixo Rio-São Paulo ou até mesmo de outros países. A partir desse esforço coletivo, o grupo começou a organizar festas, festivais e lazeres nas praças do Guará, difundindo o reggae entre a juventude candanga.

O intercâmbio cultural promovido pelo Sindicato do Reggae ajudou diretamente no surgimento de diversas bandas locais e consolidou o Guará como a verdadeira Cidade do Reggae no DF. O coletivo tornou-se referência nacional e chegou a receber reconhecimento oficial do governo da Jamaica pelo trabalho desenvolvido na difusão da cultura reggae e rastafari.

Paralelamente ao fortalecimento das bandas guaraenses, a cultura Sound System começou a ganhar força na cidade através da formação de coletivos especializados em sistemas de som. Entre os pioneiros desse movimento estão o Batidão Sonoro S/A e o Bolachões Sound System, surgidos no início dos anos 2000.

No período pós-pandemia, a cena ganhou novo impulso com o surgimento da Lion Sound, liderada por DJ Henrique Lion, e da Di_Rocha Sound System, conduzida pelo DJ Micro 061.

Em 2023, as equipes Bolachões Sound System, Lion Sound e Di_Rocha Sound System uniram forças para criar o coletivo Guará Sound System, iniciativa voltada ao fortalecimento da cultura reggae e dos sistemas de som no Distrito Federal.

A convite do Batidão Sonoro S/A, o coletivo foi um dos destaques do Festival Nacional Ragga Brasil realizado no histórico Teatro de Arena do CAVE, espaço emblemático da cultura popular guaraense.

Hoje, o Guará mantém viva uma tradição construída ao longo de décadas por DJs, operadores de som, colecionadores, produtores culturais, artistas e militantes da cultura reggae. Dos antigos vinis importados aos modernos sistemas de som  que ocupam feiras, praças e festivais da cidade, os graves continuam ecoando como símbolo de resistência cultural, ancestralidade negra, identidade periférica e transformação social no coração do Distrito Federal.



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