Folha do Guará

Abandono anunciado: a longa espera da QI 20 por uma praça que nunca chega

 
A Praça da QI 20, no Guará I, tornou-se o retrato mais explícito de uma política pública que opera no campo do discurso, das promessas e das visitas protocolares, mas falha sistematicamente na entrega concreta de políticas públicas. O espaço, que deveria cumprir função social de lazer, convivência, esporte e bem-estar, permanece há anos submetido ao abandono, à degradação e à indiferença institucional. Desde novembro de 2023, a líder comunitária Pollyanna Andrade, moradora da quadra desde 2012, vem acionando a Ouvidoria do Governo do Distrito Federal solicitando a revitalização da praça — sem qualquer resposta efetiva.

Segundo o relato da liderança comunitária, a QI 20 sequer integra o cronograma oficial de revitalização das quadras do Guará. Em uma das tentativas de diálogo, a Administração Regional informou, por meio de um assistente, que eventuais melhorias poderiam ocorrer apenas caso restassem materiais de outras obras em andamento. Na prática, a mensagem transmitida à comunidade é inequívoca: a QI 20 não é prioridade administrativa.


Em 2023, após abertura de ouvidoria, representantes da Administração Regional do Guará compareceram à quadra, realizaram reunião com moradores e assumiram compromissos formais de revitalização. Foram listadas demandas objetivas: recuperação do parque infantil, reforma da quadra esportiva, instalação de iluminação adequada, implantação de Ponto de Encontro Comunitário (PEC), revitalização dos aparelhos de musculação, poda das árvores, limpeza geral e requalificação completa do espaço. Nada disso foi executado. A única intervenção realizada foi o reparo e a pintura de alguns bancos — ação pontual, cosmética e insuficiente diante do quadro de abandono estrutural.

A degradação da praça é visível. O parque infantil apresenta brinquedos quebrados e enferrujados, oferecendo riscos às crianças. Um grande formigueiro ocupa o interior do parquinho, evidenciando a ausência de manutenção. A quadra de futebol está com alambrado rompido, gols danificados e corroídos pela ferrugem. Os aparelhos de musculação encontram-se inutilizados. A iluminação é precária, comprometendo a segurança no período noturno. Não há PEC instalado, não há limpeza regular e não houve qualquer ação estrutural de revitalização ao longo dos últimos anos.

O abandono impacta diretamente o cotidiano da comunidade e é sentido por moradores de diferentes perfis sociais. Carlos Eduardo Nogueira, 47 anos, empresário local, aponta os reflexos urbanos e econômicos da negligência:
“Tenho comércio aqui há anos e vejo a praça se deteriorar dia após dia. Um espaço abandonado afasta famílias, desvaloriza o entorno e passa a sensação de que o poder público simplesmente desistiu da QI 20.”

Para as famílias, o cenário é de insegurança. Márcia Alves Ferreira, 39 anos, dona de casa e mãe de duas crianças, relata a frustração cotidiana:
“Trago meus filhos aqui desde pequenos, mas hoje tenho medo. Os brinquedos estão quebrados, enferrujados, cheios de formiga. A gente pede manutenção, pede ajuda, e só recebe promessa.”

A juventude da quadra também sente o impacto da ausência do Estado. Lucas Henrique Souza, 19 anos, estudante, destaca a falta de perspectivas para o uso coletivo do espaço:
“A praça poderia ser um lugar de convivência, estudo e lazer, mas está largada. À noite, sem iluminação adequada, ninguém se sente seguro. Parece que a juventude daqui não importa.”

Entre os esportistas, a indignação é evidente. Rafael dos Santos Lima, 28 anos, morador da quadra e praticante de futebol amador, descreve a situação da quadra esportiva:
“A quadra está em situação crítica. Alambrado quebrado, gol enferrujado, mato por todo lado. A gente tenta manter o esporte vivo, mas sem estrutura fica impossível.”

Moradores antigos reforçam que o problema não é recente. José Antônio Pereira, 61 anos, aposentado e residente da QI 20 há mais de uma década, resume o sentimento coletivo:
“Moro aqui há mais de dez anos e nunca vi uma revitalização de verdade. Toda vez que alguém reclama, vem reunião, vem promessa… e depois o silêncio. A praça da QI 20 virou símbolo do descaso.”

Mesmo intervenções recentes demonstram a precariedade da atuação pública. Segundo a liderança comunitária, durante a colocação de areia no espaço, a própria Administração acabou danificando áreas da praça. A ação, além de mal executada, não solucionou problemas básicos: o local segue tomado por mato, formigueiros e fezes de animais. A comunidade solicitou a instalação de placas educativas para impedir a entrada de pets no parque infantil, mas a demanda nunca foi atendida.

A constante troca de responsáveis dentro da Administração Regional contribui para o apagamento de compromissos assumidos. Cada mudança reinicia o processo, anulando promessas anteriores e empurrando soluções indefinidamente para o futuro. O resultado é uma gestão sem continuidade, sem memória institucional e sem responsabilização.

Mais grave ainda é o relato, feito à comunidade, de que reformas e revitalizações só avançam quando há apadrinhamento político ou pressão da imprensa, especialmente em períodos eleitorais. Essa lógica expõe um modelo de gestão que transforma direitos básicos em favores condicionados à conveniência política.

Diante da inércia institucional, a comunidade da QI 20 se vê obrigada a recorrer à imprensa como último recurso. Não se trata de pedir privilégios, mas de exigir o cumprimento de deveres elementares do poder público. A Praça da QI 20 não está abandonada por falta de demanda, de mobilização ou de diálogo. Está abandonada por omissão, por escolha política e por uma gestão que insiste em tratar a revitalização de espaços públicos como exceção — quando deveria ser obrigação permanente.

Enquanto promessas seguem acumuladas em atas e reuniões, a praça permanece deteriorada, insegura e esquecida. E a comunidade segue aguardando que o básico deixe de ser promessa e se transforme, finalmente, em realidade.






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