Quando o básico vira troféu: a zeladoria como espetáculo no Guará

POR HENRIQUE MACHADO

No Guará, a régua da gestão pública parece ter sido enterrada junto com o asfalto antigo — aquele que nunca foi recapeado, apenas maquiado. Em seu lugar, ergueu-se um novo padrão de excelência administrativa: cumprir o mínimo legal e anunciar como se fosse um feito histórico. A lógica é simples, eficiente e perigosamente cínica — fazer o que é obrigação e vender como favor.

Poda de árvores, capina, pintura de meio-fio, tapa-buracos. Serviços elementares, previstos em contrato, orçamento e função institucional da Administração Regional, agora ganham direito a postagem triunfal, texto celebrativo e, quando possível, foto em ângulo estratégico. Falta apenas a placa: “Aqui, a administração trabalhou”.

O problema não é a execução desses serviços. Ao contrário, eles deveriam ocorrer de forma contínua, silenciosa e sem necessidade de aplausos. O escândalo está na tentativa sistemática de transformar a rotina administrativa em espetáculo de gestão, como se varrer ruas fosse inovação, pintar guias fosse política pública e tapar buracos — muitas vezes os mesmos, repetidas vezes — fosse sinal de eficiência.

No Guará, a narrativa oficial parece ignorar um detalhe inconveniente: zeladoria urbana não é programa de governo, é obrigação do Estado. Não se trata de favor à população, tampouco de concessão graciosa da administração. É dever básico, sustentado por impostos pagos religiosamente por moradores e comerciantes que, ironicamente, continuam desviando de crateras, convivendo com mato alto e esperando meses — às vezes anos — para que o “grande feito” chegue à sua quadra.

A ironia é que, quando a administração anuncia uma simples capina como vitória, ela acaba confessando, sem perceber, o próprio fracasso histórico. Afinal, se limpar o mato vira notícia, é porque o mato venceu por muito tempo. Se pintar meio-fio vira destaque, é porque o abandono virou regra. E se tapar buraco vira comemoração, é porque o asfalto perdeu a guerra há muito tempo.

Essa estética da autopromoção do óbvio revela mais do que uma estratégia de comunicação: revela uma concepção distorcida de gestão pública, onde o gestor não se vê como servidor, mas como benfeitor; não como responsável, mas como protagonista; não como executor de políticas públicas, mas como personagem de marketing institucional.

Enquanto isso, problemas estruturais seguem convenientemente fora do enquadramento das fotos: calçadas intransitáveis, equipamentos públicos deteriorados, ausência de planejamento urbano, precarização de áreas de convivência, abandono de espaços esportivos e culturais. Esses não rendem postagem fácil. Não cabem em legenda curta. Exigem projeto, continuidade e responsabilidade — três elementos raramente celebrados.

O mais preocupante é a naturalização desse teatro. Parte da população, cansada de esperar o básico, acaba agradecendo quando ele finalmente chega. E é justamente aí que mora o risco: quando o cidadão passa a agradecer por aquilo que já pagou, a gestão deixa de ser cobrada e passa a ser aplaudida pelo mínimo.

No Guará, não faltam exemplos de uma cidade ativa, crítica e participativa. O que falta é uma administração que compreenda que governar não é performar, que trabalhar não é fazer favor e que cumprir obrigação não é motivo de festa. Porque, no fim das contas, zeladoria urbana não é conquista — é ponto de partida.

E enquanto o básico continuar sendo tratado como façanha, o extraordinário seguirá eternamente prometido, nunca entregue.


Postar um comentário

Os comentários não representam a opinião do "Folha do Guará". A responsabilidade é única e exclusiva dos autores das mensagens.

Não serão publicados comentários anônimos, favor identificar-se antes da mensagem com Nome+(cidade+UF).

Postagem Anterior Próxima Postagem