Moradores, ambientalistas, lideranças comunitárias e representantes de movimentos sociais se reuniram na última terça-feira (3), na Área Cívica, em frente à Administração Regional do Guará e ao lado da da tradicional Feira do Guará, para retomar o Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará, espaço de articulação criado para discutir a preservação ambiental e o futuro das áreas verdes da cidade.
A retomada do fórum ocorre em meio a preocupações crescentes com a situação do Parque Ezechias Heringer, conhecido como Parque do Guará, uma das principais unidades de conservação urbana do Distrito Federal. Moradores e ativistas apontam que a área enfrenta há anos problemas como invasões, degradação ambiental, queimadas e falta de políticas efetivas de preservação.
O encontro reuniu integrantes da comunidade local, ambientalistas e lideranças que historicamente acompanham as discussões sobre o parque. Entre os participantes estavam moradores antigos da cidade, ativistas ambientais e integrantes do movimento que, ao longo dos anos, participaram das mobilizações pela consolidação da unidade de conservação.
Durante o encontro, moradores destacaram que a retomada do fórum busca fortalecer a organização popular para acompanhar e cobrar políticas públicas voltadas à preservação do parque. Segundo participantes, a mobilização é fundamental para impedir retrocessos ambientais e garantir que a unidade de conservação cumpra seu papel de proteção do Cerrado e de espaço de convivência para a população.
O debate também abordou problemas estruturais enfrentados pelo parque ao longo dos últimos anos. Entre as principais preocupações estão o avanço de ocupações irregulares em áreas sensíveis, furtos de cercas e equipamentos, processos de erosão e a ausência de um plano de manejo plenamente implementado.
Além disso, moradores lembraram que, embora o Governo do Distrito Federal tenha anunciado em diferentes momentos projetos de revitalização para o parque — incluindo melhorias em trilhas, recuperação do mirante e ampliação de equipamentos ambientais — muitas dessas iniciativas ainda não se concretizaram ou avançaram de forma lenta.
“O parque mais legítimo de Brasília”
Durante a reunião, um dos fundadores do Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará, o morador Waterman Gama Dias, destacou a importância histórica e ambiental da unidade de conservação e alertou para os riscos que ela enfrenta atualmente.
Morador do Guará há cerca de cinco décadas, ele relembrou seu envolvimento com a luta ambiental na cidade e afirmou que ficou surpreso com recentes iniciativas do governo que, segundo o movimento, colocam em risco a integridade do parque.
Segundo Waterman, o Parque Ezechias Heringer possui uma legitimidade rara entre as unidades de conservação da capital. O parque possui escritura registrada em cartório, plano de manejo, conselho gestor e uma poligonal definida, resultado de um longo processo de negociação entre moradores e o governo do Distrito Federal.
A delimitação territorial do parque, segundo ele, foi construída por uma comissão formada por moradores do Guará em 2009, que levou cerca de dois anos de negociação com o governo para definir oficialmente o perímetro da área protegida.
Atualmente, o parque possui cerca de 344 hectares e abriga espécies raras da fauna e da flora do Cerrado. Entre os exemplos citados está o Pirá-Brasília, pequeno peixe encontrado no Córrego do Guará e considerado uma espécie extremamente rara.
Além da fauna, a flora também possui características únicas, com presença de vegetação típica do Cerrado e áreas de campo de murundu, formação ecológica característica da região.
Para Waterman, a localização estratégica do parque também o torna alvo constante de pressões imobiliárias, especialmente por estar próximo a áreas valorizadas e a novos empreendimentos residenciais de alto padrão.
Diante desse cenário, ele afirmou que a retomada do fórum representa um passo importante para fortalecer a mobilização da comunidade em defesa do parque.
Participação popular e defesa do Cerrado
Também presente na reunião, o professor e ambientalista e um dos fundadores do Fórum Klecius Oliveira destacou que a organização comunitária é fundamental para garantir a preservação do parque e das áreas de Cerrado ainda existentes na região.
Segundo ele, o parque representa um patrimônio ambiental estratégico não apenas para o Guará, mas para todo o Distrito Federal.
“O Parque do Guará é uma das áreas mais importantes de preservação do Cerrado dentro da malha urbana de Brasília. Estamos falando de um território que protege nascentes, fauna, flora e um ecossistema extremamente sensível. Defender o parque é defender a qualidade de vida da população e o equilíbrio ambiental da nossa região”, afirmou.
Para o professor, a retomada do fórum fortalece a participação popular nas decisões que envolvem o território.
“Quando a comunidade se organiza e acompanha as políticas públicas, ela cumpre um papel fundamental na defesa do patrimônio coletivo. O Fórum Permanente é justamente esse instrumento de vigilância cidadã, diálogo e mobilização em defesa do parque.”
“Parque colocado no balcão de negócios”
A liderança comunitária Juliana Krause também participou da reunião e destacou a importância da mobilização popular para proteger as áreas verdes da cidade.
“É muito bacana e muito importante ver os moradores se mobilizando novamente em prol da defesa do nosso parque, que mais uma vez é colocado no balcão de negócios do GDF. Toda vez que a gente tem algum problema, entre aspas, do governo, o nosso parque é colocado no balcão de negócios”, afirmou.
Segundo ela, a retomada do fórum é essencial para garantir a defesa do território e o acompanhamento das políticas públicas relacionadas às áreas verdes do Guará.
“É preciso retomar o fórum permanente em defesa do nosso parque e dos nossos espaços verdes, para que a gente garanta a qualidade de vida da população e também o acompanhamento e a transparência do retorno social das áreas verdes utilizadas aqui no Guará.”
Vergonha! Administração do Guará deixa o povo na rua
A reunião do Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará, inicialmente marcada para ocorrer no auditório da Administração Regional do Guará, acabou sendo realizada do lado de fora do prédio público. Segundo os organizadores, o encontro havia sido previamente agendado junto à administração regional, inclusive em reunião com o próprio Administrador Artur Nogueira, mas, pouco antes do Início da atividade, a comunidade foi informada de que o auditório não poderia ser utilizado.
De acordo com a justificativa apresentada pela administração, o espaço estaria interditado para obras. A explicação causou surpresa e indignação entre os participantes, já que, recentemente, o auditório havia sido oficialmente entregue reformado à comunidade após obras de revitalização. Na ocasião, a informação divulgada era de que apenas a área do camarim ainda necessitava ser reformado encontrando-se interditado.
Diante da negativa, moradores, ambientalistas e lideranças comunitárias decidiram manter a reunião ao ar livre, transformando a própria Área Cívica em espaço de debate público sobre a preservação do parque.
O episódio levantou questionamentos entre os participantes do fórum sobre o acesso da população aos equipamentos públicos da cidade. Para muitos moradores, a situação reacende uma dúvida que ecoou durante o encontro: se o auditório foi reformado e entregue à comunidade, por que ele não pode ser utilizado?
Entre críticas e questionamentos, ficou no ar algumas perguntas feitas por diversos presentes: será que a comunidade do Guará terá, de fato, seu teatro devolvido? Será que dessa vez teremos o nosso Teatro funcionando plenamente.
Até quando devemos continuar em acreditando nas palavras do Administrador Pop Star do Guará Artur Nogueira?
Mobilização deve continuar
Ao final do encontro, os participantes reforçaram a importância de manter a mobilização ativa e ampliar o diálogo com a comunidade. A proposta é que o Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará volte a funcionar de forma contínua, promovendo reuniões periódicas, debates públicos e ações de conscientização ambiental.
A expectativa dos organizadores é que o fórum se consolide novamente como um espaço permanente de articulação entre moradores, especialistas e movimentos sociais, garantindo que o futuro do Parque Ezechias Heringer seja discutido de forma transparente e com ampla participação popular.
Para os participantes da reunião, a defesa do parque não é apenas uma pauta ambiental, mas também uma luta pelo direito da cidade de preservar sua história, seu território e suas áreas verdes para as próximas gerações.





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