Feira Itinerante do Guará: entre barracas e discursos como a gestão do Guará vive de carona e abandona seus feirantes

Chamar de Feira Itinerante do Guará é um ato de audácia semântica. Um desses em que o nome tenta constranger a realidade. Porque, na prática, o Guará não protagoniza, não decide e não se beneficia. Ele apenas cede o chão, garante o público e absorve o impacto negativo. É a cidade usada como insumo, enquanto seus feirantes viram dano colateral.

A parceria anunciada pela Administração Regional do Guará com uma associação externa não nasce de planejamento territorial, muito menos de escuta comunitária. Nasce da preguiça administrativa. É mais fácil alugar um projeto pronto do que construir uma política pública com quem já empreende aqui há anos, muitas vezes à margem de qualquer apoio institucional.

O argumento de que o modelo já funciona há três anos em outras cidades não é virtude — é confissão. Confissão de que o Guará não foi ouvido, não foi estudado e não foi considerado. Foi apenas encaixado. Copiar e colar virou método de gestão. A cidade, reduzida a cenário intercambiável.

O deboche ganha contornos quase cruéis quando se escolhe a Praça da Moda, no Polo de Moda, como palco. Um espaço concebido para fortalecer a vocação produtiva local é usado para validar expositores de fora, enquanto costureiras, artesãos e feirantes do próprio Guará continuam enfrentando taxas altas, regras confusas e portas fechadas. Para eles, não há “projeto piloto”, não há divulgação, não há surpresa positiva — há apenas sobrevivência.

E os prejuízos não são abstratos, são mensuráveis:

Primeiro, concorrência desleal institucionalizada. O feirante local disputa o mesmo público com um evento que chega blindado: autorização expressa, estrutura montada, divulgação oficial. Enquanto isso, quem é do Guará luta por alvará, por permissão temporária, por um mínimo de visibilidade. Não é mercado livre; é favoritismo disfarçado.

Segundo, queda direta de renda. O público não se multiplica; ele se desloca. Cada barraca externa montada ali representa menos circulação nas feiras tradicionais, menos venda para quem depende daquela renda semanal para pagar contas básicas.

Terceiro, desmonte simbólico do pertencimento. O recado é pedagógico e perverso: persistir no bairro não compensa. Organizar-se localmente não gera prioridade. O que vale é chegar de fora com selo de “experiência comprovada”. O empreendedor do Guará aprende, na prática, que é cidadão de segunda classe dentro da própria cidade.

A gestão, por sua vez, celebra o “sucesso de público” como se tivesse descoberto a pólvora. O Guará sempre teve público. O Guará sempre consumiu. O mérito não é da feira; é do território. Até um evento mal organizado venderia ali. Mas reconhecer isso exigiria admitir que o problema nunca foi falta de iniciativa local — foi falta de apoio.

E há um silêncio que grita: ninguém diz quantos expositores são do Guará. Ninguém diz quantos feirantes locais foram chamados. Ninguém diz quantos ficaram de fora. Porque responder essas perguntas desmontaria a farsa da inclusão.

No fundo, a Feira Itinerante do Guará é apenas mais um capítulo de uma gestão que não formula, não lidera e não assume autoria. Ela se limita a embarcar em projetos alheios, posar para foto e distribuir frases otimistas. Governa como passageira, nunca como motorista. Sempre de carona.

O resultado é uma cidade usada como vitrine e seus trabalhadores tratados como obstáculo. O feirante local paga a conta: perde renda, perde espaço, perde reconhecimento. A gestão, por outro lado, ganha manchete, agenda e a confortável ilusão de que está “fazendo algo”.

No fim, o Guará não ganha uma política de fomento. Ganha um evento terceirizado.
Não ganha desenvolvimento. Ganha marketing.
Não ganha protagonismo. Ganha desprezo.

E assim, entre bolos elogiados, bijuterias reluzentes e discursos satisfeitos, consolida-se a lógica mais antiga do poder público local: usar o Guará como cenário, explorar seu público e empurrar o prejuízo para quem realmente é da cidade



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