A Feira do Guará, um dos espaços mais tradicionais de trabalho, convivência e circulação econômica da cidade, mergulhou literalmente no escuro. Não por acaso, não por falha técnica imprevisível, tampouco por obra do destino. O motivo é direto, concreto e constrangedor: falta de pagamento por parte da Administração Regional do Guará das contas de energia elétrica do espaço.
O resultado é um cenário que beira o surreal — e o vergonhoso. Feirantes trabalhando às cegas, corredores sem iluminação mínima, risco real de acidentes, prejuízos diretos para quem depende da feira para sobreviver e um completo abandono do poder público. Um apagão que não é apenas elétrico, mas sobretudo administrativo, político e moral.
Enquanto discursos oficiais exaltam o “apoio ao empreendedorismo local”, a prática mostra o oposto: negligência, descaso e desorganização. A feira segue aberta porque os trabalhadores se recusam a fechar as portas, mesmo sendo empurrados para uma situação indigna. Afinal, quem fecha perde renda; quem abre, assume o risco.
É importante frisar: os feirantes pagam suas taxas, cumprem regras e mantêm o espaço vivo. O que falha é a contrapartida básica do Estado. Energia elétrica não é luxo, não é favor, não é benesse política — é infraestrutura mínima. Sem luz, não há segurança, não há funcionamento adequado, não há respeito.
O silêncio da Administração do Guará diante do problema só agrava o quadro. Nenhuma nota oficial clara, nenhum cronograma de regularização, nenhuma explicação convincente. Apenas a velha estratégia do empurra-empurra burocrático, enquanto quem trabalha segue no prejuízo. O poder público, que deveria garantir condições mínimas, se esconde atrás da própria ineficiência.
O apagão na Feira do Guará escancara uma lógica recorrente: a cidade só é lembrada quando vira palco de eventos, fotos institucionais ou discursos vazios. No dia a dia, o trabalhador local é tratado como invisível. Quando a conta chega, quem paga é sempre o mais fraco da cadeia.
Até quando os feirantes terão que arcar com o preço da incompetência administrativa? Até quando a Feira do Guará será tratada como um problema secundário, quando na verdade é um motor econômico, cultural e social da cidade?
Sem luz, a feira apaga. Sem responsabilidade, a gestão também.

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