A infestação de caramujos registrada na QE 9 do Guará 1, no Distrito Federal, voltou a preocupar moradores e autoridades de saúde, reacendendo o alerta para riscos sanitários que se arrastam há meses sem solução estrutural. O problema, exibido nesta quarta-feira (19) pelo programa DF no Ar, do R7, não é um caso isolado nem recente: ele integra um quadro recorrente de degradação ambiental urbana que vem sendo denunciado pela comunidade e pela imprensa local desde o início do ano.
No Conjunto H da QE 9, a presença dos moluscos tornou-se parte do cotidiano. Após períodos de chuva, caramujos se espalham por calçadas, áreas verdes e entradas das residências, ampliando o risco de transmissão de doenças como a esquistossomose, infecção parasitária associada a ambientes insalubres e à falta de manejo ambiental adequado.
“Isso aqui virou rotina. A gente acorda cedo e já tem caramujo na calçada, no portão, perto da porta de casa. Tenho medo por causa das doenças, porque a gente vê criança brincando e idoso passando”, relata Maria das Dores, 68 anos, aposentada e moradora do Conjunto H. “Não é só sujeira, é risco à saúde.”
População assume tarefa que deveria ser do Estado
Diante da ausência de ações efetivas do poder público, moradores afirmam que passaram a enfrentar o problema por conta própria. Com luvas e água sanitária, tentam conter a infestação de forma improvisada, muitas vezes sem orientação técnica. O cenário é agravado pelo mato alto e pela falta de manutenção das áreas públicas, criando condições ideais para a proliferação dos moluscos e aumentando o risco de aparecimento de cobras e outros animais peçonhentos.
“A população está fazendo o que pode, mas isso não resolve. O caramujo volta porque o mato continua alto e ninguém faz a limpeza direito”, afirma Carlos Henrique Almeida, 44 anos, auxiliar de serviços gerais. “Isso deveria ser tratado como questão de saúde pública, não jogado nas costas do morador.”
Problema se repete em outras áreas do Guará
A situação observada no Guará 1 repete um padrão já denunciado em janeiro em outros setores da região administrativa. Na ocasião, moradores do IAPI, do Guarapark e do Bernardo Sayão relataram a proliferação de caramujos associada ao período chuvoso, ao abandono das áreas verdes e à ausência de capina regular.
A repetição do problema em pontos distintos evidencia que não se trata de um episódio pontual, mas de uma falha estrutural no manejo urbano e ambiental, que se intensifica ano após ano.
Medo afeta a rotina das famílias
Para quem tem crianças, o problema altera diretamente a dinâmica da vida cotidiana. Ana Paula Ribeiro, 32 anos, mãe de dois filhos, conta que precisou restringir o uso das áreas externas após as chuvas.
“Tenho filhos pequenos e fico muito preocupada. A gente evita deixar as crianças brincarem fora de casa quando chove, porque os caramujos aparecem em todo canto. Já ligamos várias vezes pedindo providência e nada acontece.”
O sentimento de abandono também é compartilhado pelos mais jovens. Para Lucas Santos, 19 anos, estudante, a sensação é de que o problema só ganha atenção quando vira manchete.
“O que mais revolta é que isso não é novo. A gente denuncia, aparece na televisão, mas passa o tempo e tudo continua igual. Parece que só lembram do Guará quando vira notícia”, critica.
Orientação técnica existe, execução falha
A Vigilância Sanitária orienta que os caramujos devem ser submersos em solução com cloro e que seus ovos precisam ser enterrados para evitar a proliferação, além do uso de equipamentos de proteção no manuseio. Técnicos alertam, porém, que essas ações não podem ser transferidas integralmente à população.
Especialistas defendem que o controle eficaz depende de políticas públicas contínuas, como limpeza urbana regular, capina sistemática, manejo ambiental adequado, campanhas educativas e monitoramento das áreas críticas.
Sintoma de um problema maior
A infestação ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade sanitária no Distrito Federal, marcado por aumento de casos de dengue, alagamentos, vazamentos de esgoto e falhas recorrentes na manutenção urbana. O padrão é conhecido: a comunidade alerta, a imprensa registra, o risco é reconhecido — mas a resposta institucional segue lenta ou inexistente.
Mais do que um incômodo ambiental, a presença descontrolada de caramujos é um indicador direto de risco à saúde pública e de perda da dignidade urbana. A permanência do problema desde janeiro, agora com novo foco no Guará I, levanta um questionamento inevitável: quantos alertas ainda serão necessários para que a infestação seja tratada como prioridade sanitária e não como uma responsabilidade improvisada da própria população?

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