Folha do Guará

Diretora e vice de Escola Pública no Guará são indiciadas por maus-tratos

O que deveria ser um espaço de acolhimento infantil acabou se tornando o centro de uma investigação criminal. A Polícia Civil do Distrito Federal indiciou a diretora e a vice-diretora da Escola Classe 3 da Estrutural — unidade que, apesar do nome, funciona no Guará II — por maus-tratos contra crianças. O foco do inquérito é a existência de uma chamada sala das emoções, ambiente para onde alunos eram levados como forma de punição.

A apuração começou após denúncias feitas por pais de estudantes entre 4 e 9 anos, incluindo crianças autistas e não autistas. Segundo os relatos, os alunos eram conduzidos ao local sempre que apresentavam comportamentos considerados inadequados pela gestão escolar. Em 2024, famílias formalizaram a denúncia por meio de boletim de ocorrência registrado na 4ª Delegacia de Polícia, no Guará.

Durante as diligências, investigadores reuniram indícios que confirmam a existência do espaço descrito pelos pais. O inquérito foi concluído e encaminhado ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), onde tramita sob sigilo.

Um espaço que causava medo, não acolhimento

O caso ganhou repercussão pública em agosto de 2024, quando pais de alunos relataram à imprensa mudanças abruptas no comportamento dos filhos. Entre eles, Paula Holanda e Yuri de Lima, pais de um menino de 4 anos que havia iniciado a vida escolar naquele ano. Segundo o casal, foi somente após o desligamento de uma professora da unidade que eles tomaram conhecimento da existência da sala.

Ao procurarem a escola, ouviram da direção que a docente não se adequava aos procedimentos adotados. Na mesma visita, a vice-diretora teria apresentado o espaço aos pais. O ambiente, conforme descrito, possuía tatames pretos no chão e nas paredes, janelas travadas, ventilador e iluminação artificial semelhante a luzes de boate.

Dias depois, veio a revelação mais grave: o próprio menino contou que já havia sido levado ao local, assim como outros colegas. Segundo a criança, o objetivo era fazê-los parar de chorar.

Pouco tempo depois, o impacto emocional tornou-se evidente. O menino passou a apresentar medo do escuro, pesadelos frequentes e resistência em retornar à escola. Para os pais, as mudanças de comportamento só passaram a fazer sentido após a descoberta da sala. A decisão foi pela retirada imediata da criança da unidade e pedido de transferência.

Retrocessos no desenvolvimento de crianças autistas

Outros depoimentos reforçaram a gravidade da situação. Uma mãe, ouvida pela Polícia Civil e que preferiu não se identificar, relatou que a filha autista apresentou regressão significativa no tratamento após ser matriculada na escola. Ela confirmou as características do espaço e afirmou nunca ter sido informada sobre a existência da sala ou sobre qualquer protocolo pedagógico ou terapêutico relacionado ao uso do ambiente.

Para as famílias, o problema central não foi apenas a existência do local, mas a total ausência de comunicação, consentimento e respaldo técnico para lidar com crianças em sofrimento emocional, especialmente aquelas com deficiência.

Secretaria arquivou e agora reavalia

Em nota, a Secretaria de Educação do Distrito Federal informou que o caso já havia sido analisado anteriormente pela corregedoria da pasta e que, à época, o procedimento administrativo foi arquivado por falta de elementos considerados suficientes.

No entanto, após o indiciamento das gestoras pela Polícia Civil, a Secretaria afirmou que determinou a reavaliação imediata do caso. A corregedoria solicitou acesso ao inquérito policial para examinar as provas reunidas e decidir sobre a eventual reabertura do processo administrativo disciplinar.

Enquanto isso, o episódio expõe fragilidades graves na fiscalização, no cuidado com a infância e na forma como práticas potencialmente abusivas podem se esconder sob discursos de “controle emocional” dentro de instituições públicas de ensino.

O que para a gestão era tratado como método, para as crianças se revelou como medo. E agora, para a Justiça, tornou-se caso de polícia.

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