Folha do Guará

Polo de Moda e QE 40: o paraíso das drogas e da prostituição no Guará

Se existe uma política pública plenamente consolidada no Polo de Moda e na QE 40, ela atende por um nome simples e recorrente: repressão. O Estado aparece, quase sempre, fardado, armado e em viaturas. Entra, faz barulho, prende alguns, apreende algo, sai. Dias depois — às vezes horas — tudo volta a funcionar como antes. O ciclo se repete com a mesma previsibilidade de um roteiro já decorado.

Enquanto isso, a prevenção segue sendo apenas um conceito bonito em discursos oficiais. Cultura, educação, saúde e emprego — os pilares básicos de qualquer estratégia séria de enfrentamento à violência — simplesmente não chegam com a mesma intensidade, continuidade ou prioridade. O resultado é um território onde o Estado só se manifesta quando o problema já explodiu.

No Polo de Moda e na QE 40, a prostituição não ocupa esquinas nem vitrines. Ela é velada, silenciosa e concentrada dentro das quitinetes, funcionando como parte de uma economia paralela que prospera justamente na ausência de alternativas. Portas que giram dia e noite, anúncios virtuais, fluxo constante de pessoas e uma normalização tácita desse funcionamento. Não é segredo para quem mora ali — é rotina.

O tráfico de drogas, por sua vez, não é um fenômeno ocasional. Ele se estrutura, se adapta e se infiltra exatamente onde o Estado não atua de forma contínua. A lógica é simples: onde não há política de emprego, entra o dinheiro rápido do ilícito; onde não há cultura e lazer, entra o vazio; onde não há saúde mental e assistência social, entram o abandono e a dependência química.

Mas a resposta oficial insiste em ser quase exclusivamente policial. Não há um plano consistente de requalificação urbana, não há ocupação cultural permanente, não há política robusta de formação profissional, nem ações estruturadas de saúde e assistência social voltadas para a realidade específica da região. O Estado prefere lidar com as consequências, não com as causas.

O Polo de Moda virou um território híbrido e mal resolvido: comércio durante o dia, economia ilegal à noite, moradia precária em tempo integral. Quitinetes acumulam funções incompatíveis com qualquer noção de cidade organizada. Famílias convivem parede com parede com atividades ilícitas, enquanto comerciantes ajustam horários e moradores aprendem a conviver com o medo como parte do cotidiano.

A repressão isolada, sem políticas públicas integradas, produz apenas estatística momentânea. Reduz números por algumas horas, gera manchetes passageiras e reforça a ilusão de controle. Mas não transforma a realidade. Ao contrário: empurra o problema para dentro, torna-o mais silencioso e, muitas vezes, mais perigoso.

O mais perverso é que essa escolha não é fruto de desconhecimento. O Estado sabe onde estão os problemas, conhece a dinâmica local e tem dados suficientes para agir de forma preventiva. Ainda assim, opta pelo caminho mais curto, mais visível e politicamente mais conveniente: a viatura em vez da escola, a operação policial em vez do projeto cultural, a prisão em vez da política de emprego.

Assim, o Polo de Moda e a QE 40 seguem como um retrato claro de uma política pública que falhou por opção. Um território onde drogas circulam com facilidade, a prostituição opera discretamente dentro das quitinetes e a violência se retroalimenta da ausência de oportunidades reais. Não por falta de diagnóstico, mas por falta de vontade de enfrentar o problema onde ele realmente começa.

Enquanto o Estado insistir em tratar a QE 40 apenas como caso de polícia, ela continuará sendo exatamente isso: um espaço onde a repressão chega tarde, a prevenção nunca chega e o abandono se torna política permanente.



Postar um comentário

Os comentários não representam a opinião do "Folha do Guará". A responsabilidade é única e exclusiva dos autores das mensagens.

Não serão publicados comentários anônimos, favor identificar-se antes da mensagem com Nome+(cidade+UF).

Postagem Anterior Próxima Postagem