Monólogo protagonizado por Regina Sant’ana, moradora do Guará, cumpre temporada gratuita até domingo e provoca o público a encarar uma violência histórica ainda naturalizada
O palco vira tribunal, a cena se torna julgamento e o público deixa de ser mero espectador. Em GAIOLA, espetáculo escrito e dirigido por Bruno Estrela, a acusação inicial de roubo contra uma empregada doméstica funciona apenas como ponto de partida para uma inversão poderosa: o crime real exposto ao longo do monólogo é o da escravidão doméstica, prática ainda presente no cotidiano brasileiro, muitas vezes mascarada por relações de “cuidado” e falsa cordialidade.
Em cartaz até domingo (18), sempre às 20h, no Espaço Multicultural Casa dos Quatro, na 708 Norte,a montagem marca os 39 anos de carreira da atriz Regina Sant’ana, que assume sozinha o desafio cênico de sustentar uma narrativa densa, direta e politicamente incômoda.
Na pele de Jaqueline, Sant’ana constrói uma personagem atravessada pelo confinamento, pela violência psicológica e pela negação sistemática de direitos básicos. A encenação aposta na intimidade e na frontalidade: não há fuga possível. O público é convocado a acompanhar, quase como cúmplice involuntário, o desmonte de uma estrutura social que transforma exploração em normalidade.
O formato de monólogo intensifica esse confronto. Sem contracena física, a atriz estabelece uma relação direta com a plateia, rompendo qualquer zona de conforto. “É o maior desafio técnico da minha trajetória. Estar sozinha em cena exige uma entrega absoluta”, afirma Sant’ana. Para ela, GAIOLA ultrapassa o campo estético e assume um compromisso ético: “Dar corpo e voz à luta contra o trabalho escravo doméstico transforma o palco em um espaço de resistência”.
A dramaturgia opera em tensão permanente entre denúncia e lirismo. O texto não suaviza a brutalidade da realidade apresentada, mas também não se apoia no distanciamento frio. O riso nervoso, seguido pelo choque, cria um efeito de empatia que aproxima o público da personagem e de sua dor. “O lirismo não ameniza a denúncia, ele a torna ainda mais contundente”, destaca a atriz.
A construção de Jaqueline dialoga diretamente com memórias pessoais e afetivas de Sant’ana, o que confere densidade emocional à interpretação. A personagem carrega traços infantis como mecanismo de sobrevivência psíquica, revelando uma mulher adulta presa a um universo emocional interrompido pela violência e pela negação de liberdade.
Antes de chegar ao circuito cultural tradicional, GAIOLA percorreu espaços comunitários, apresentações que reforçaram seu caráter social. Sessões voltadas a idosos e estudantes da Educação de Jovens e Adultos evidenciaram o potencial do teatro como ferramenta de conscientização. “A arte precisa romper paredes e alcançar quem historicamente foi invisibilizado”, afirma Sant’ana.
Ao transformar o palco em espaço de julgamento coletivo, GAIOLA reafirma o teatro como linguagem de denúncia social e provoca uma pergunta inevitável: quem está, de fato, no banco dos réus?.



.png)