Por Henrique Machado
No Guará, a política cultural parece ter adotado um modelo eficiente — ao menos para quem governa: esperar que projetos do FAC ou emendas parlamentares caiam de paraquedas na cidade, pegar carona, cortar a fita e posar para a foto. A execução vem pronta, “porteira fechada”, com artistas de fora ocupando quase todos os espaços, enquanto os criadores locais recebem, quando muito, vagas simbólicas, insuficientes para representar a diversidade de linguagens, trajetórias e expressões culturais existentes na cidade. É a inclusão como ornamento, não como política pública.
Esse cenário só se sustenta porque conta com um aliado estratégico: o silêncio sepulcral de um Conselho de Cultura que já foi combativo, propositivo e diferenciado. Hoje, prefere a comodidade das benesses institucionais à tarefa incômoda de tensionar o poder público. Há, inclusive, quem tenha trocado a defesa das políticas culturais por um cargo na própria Administração, numa metamorfose curiosa que transforma fiscalização em fidelidade e participação social em conveniência administrativa.
O resultado é um paradoxo cruel: o Guará segue produzindo excelentes artistas, criadores potentes, coletivos ativos e uma cena cultural viva, mas condenada à precariedade. Se dependessem exclusivamente de sua arte para sobreviver, muitos estariam à beira da fome. Enquanto isso, a gestão cultural se contenta em administrar eventos alheios, celebrar migalhas e manter os artistas locais no eterno papel de pedintes — sempre com o pires na mão, esperando sobrar algo da festa que acontece, quase sempre, sem eles.

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