No Guará, a regra parece cada vez mais clara: quando o poder público falha, sobra para o morador assumir o papel que deveria ser do Estado. Foi exatamente o que aconteceu esta semana na Praça da Paz, na QE 05, onde o morador Jorge, ao lado do filho Júlio, decidiu fazer o que a Administração Regional insiste em empurrar com a barriga: capinar e cuidar do parquinho usado diariamente por crianças da comunidade.
Sem discurso, sem postagem institucional, sem selfie de colete oficial. Apenas trabalho braçal, enxada, esforço e responsabilidade com o espaço público. Uma cena simples, mas profundamente simbólica. Enquanto discursos sobre gestão eficiente e cidade cuidada circulam nas redes sociais, quem de fato cuida da cidade são moradores cansados de esperar.
O contraste fica ainda mais constrangedor quando se observa o comportamento padrão da Administração. Pressionada pela Prefeitura Comunitária e pela imprensa local, a resposta vem rápida — porém apenas para inglês ver. Um giro relâmpago pela Praça da Paz, uma capina e roçagem feitas às pressas, mal-acabadas, suficientes apenas para gerar foto e dizer que o serviço foi executado. Depois disso, o abandono volta a reinar, como se o problema estivesse resolvido por decreto ou por postagem.
É a política do faz de conta: finge-se que cuida, finge-se que resolve, finge-se que respeita a população. A manutenção contínua, que deveria ser rotina básica de qualquer administração regional, vira ação emergencial só quando alguém cobra, denuncia ou expõe o descaso.
Enquanto isso, pais seguem levando seus filhos a parquinhos tomados pelo mato, praças esquecidas e equipamentos públicos deteriorados. A Praça da Paz, ironicamente, vira palco de um conflito silencioso entre a propaganda oficial e a realidade concreta do chão.
O gesto de Jorge e Júlio não deveria ser romantizado como exemplo de cidadania para encobrir a omissão do Estado. Ao contrário: ele escancara o fracasso da gestão pública em cumprir o mínimo. Cidadania não é substituir o poder público, é cobrar que ele funcione.
Quando moradores precisam capinar parquinho para garantir segurança às próprias crianças, algo está profundamente errado. E quando a resposta oficial é uma roçagem meia-boca, feita apenas para calar críticas, o problema deixa de ser operacional e passa a ser político.
No fim das contas, a Praça da Paz segue como símbolo de um Guará onde a comunidade trabalha e a Administração reage — mal, tarde e apenas quando pressionada. Se depender da boa vontade institucional, o mato cresce. Se depender da população, a cidade resiste. Mas até quando?


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