Folha do Guará

Guará entra na era do “planejamento urbano por comentários nas redes sociais

A Administração do Guará acaba de inaugurar uma nova e revolucionária política pública: a gestão urbana por comentários em posts de Instagram. Em um vídeo que circula com a logomarca do Administrador Regional — porque, afinal, nada diz “institucionalidade” como um reels — somos informados de que o Guarárecebeu” 40 contêineres de lixo. A cereja do bolo? A população é convidada a comentar no post dizendo onde quer que eles sejam instalados.

Planejamento técnico? Diagnóstico territorial? Estudos de fluxo, geração de resíduos, densidade populacional ou impacto ambiental? Nada disso. A nova metodologia é simples, moderna e democrática: quem comentar mais rápido decide. Se viralizar, melhor ainda.

É curioso observar como uma política pública básica, que deveria ser precedida por mapeamento urbano, critérios sanitários e articulação com o SLU, vira um grande “comenta aí, galera”. O Estado, que dispõe de técnicos, engenheiros, fiscais e dados acumulados há décadas, agora terceiriza sua responsabilidade para o algoritmo e para a boa vontade dos seguidores.

A lógica parece clara: se der certo, é mérito da Administração; se der errado, a culpa é do povo que “pediu”. Uma jogada brilhante de marketing político disfarçada de participação social. Afinal, participação popular não exige conselho, audiência pública, edital ou escuta qualificada — basta um campo de comentários e alguns emojis de aplauso.

Enquanto isso, o Guará segue enfrentando problemas crônicos de limpeza urbana, descarte irregular, ausência de educação ambiental contínua e fiscalização intermitente. Mas nada disso aparece no vídeo. O foco é o contêiner, esse objeto quase místico, apresentado como se fosse a solução estrutural para um problema estrutural. Como se lixo fosse apenas uma questão de onde colocar a caixa, e não de política pública integrada.

Há também um detalhe simbólico importante: os contêineres “foram recebidos”. Não se fala em planejamento, investimento, cronograma ou integração com outras regiões administrativas. Eles simplesmente chegaram — quase como um presente — e agora precisam ser “espalhados” conforme a sabedoria coletiva dos comentários.

No fim das contas, o vídeo não comunica eficiência, nem transparência. Comunica improviso. Comunica a substituição da gestão pública por engajamento digital. Comunica que, no Guará, o planejamento urbano cabe em um reels de 30 segundos.

Se amanhã faltar iluminação pública, talvez a solução seja abrir uma enquete. Se o trânsito colapsar, uma caixa de perguntas resolve. E quando a cidade pedir políticas públicas de verdade, quem sabe um “curte se concorda” dê conta.

Porque, ao que tudo indica, governar virou isso: menos Estado, menos técnica, menos responsabilidade — e mais comentários.

Conheça o vídeo 

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