Folha do Guará

Bar Praia de Itapoá: 25 anos de tradição na Feira do Guará

 

Há 25 anos, o quiosque Bar Praia de Itapoá resiste como um dos pontos mais tradicionais na área externa da Feira do Guará. À frente do espaço está Luísa Batista de Souza dos Santos, comerciante que construiu sua história em Brasília a partir do trabalho informal, da persistência e de uma relação profunda com o território onde vive e trabalha desde a década de 1970.

Natural de Monte Alegre, no Piauí, Luísa chegou a Brasília aos 18 anos. Casou-se, teve três filhas e iniciou a vida profissional trabalhando em casas de família e restaurantes. Pouco tempo depois do casamento, ela e o marido adquiriram um restaurante na 213 Sul, onde permaneceram por cerca de 20 anos. O negócio precisou ser encerrado quando o marido adoeceu gravemente. Pouco depois, a família se mudou para o Guará, em 1997, ano que marca o início de uma nova fase.

Já no Guará, Luísa passou a trabalhar em quiosques da região até receber a proposta de alugar o espaço onde hoje funciona o Praia de Itapoá. O proprietário, um advogado com escritório em Taguatinga Sul, não tinha disponibilidade para tocar o negócio. Durante cinco anos, Luísa manteve o quiosque funcionando, pagando aluguel e mantendo todas as taxas em dia.

A situação mudou em 2009, durante um processo de cadastramento promovido pela Administração Regional do Guará, após orientação do então governo do Distrito Federal para regularizar quiosques ocupados por quem efetivamente trabalhava neles. Sem localizar o proprietário formal, a Administração reconheceu Luísa como responsável pelo espaço, orientando que o quiosque fosse registrado em seu nome. A partir daí, ela deixou de pagar aluguel e passou a responder legalmente pelo ponto.

Embora o processo tenha ocorrido dentro da legalidade, a mudança desencadeou uma série de conflitos. Segundo Luísa, a partir de 2015, começaram episódios de perseguição por parte de outros comerciantes da feira, com acusações públicas, tentativas de deslegitimação e ações que impactaram diretamente o funcionamento do quiosque. Nesse período, o espaço chegou a empregar até cinco pessoas nos fins de semana, com rodas de pagode organizadas por sua filha, que acabou adoecendo e faleceu após desenvolver um linfoma agressivo.

Além das perdas pessoais, Luísa passou a enfrentar problemas estruturais graves. Uma caixa de gordura, que não pertence ao seu quiosque, foi instalada a cerca de um metro e meio do espaço e frequentemente transborda, espalhando mau cheiro e afastando clientes. Para continuar funcionando, ela relata que precisa pagar semanalmente pela limpeza do local. Outro problema recorrente é a instalação de um poste de energia colado em frente ao quiosque, que atrai pombos e gera sujeira constante sobre mesas e clientes.

A situação se agravou ainda mais com o fechamento do banheiro público externo, determinado pela Administração do Guará. Atualmente, o único banheiro disponível fica dentro da feira, exigindo deslocamento longo. Para Luísa, que é diabética desde 2009 e já sofreu episódios graves de descompensação, a ausência de um banheiro próximo representa um risco à saúde e um fator decisivo na perda de clientela. A construção de um banheiro próprio chegou a ser orçada em cerca de R$ 5 mil, valor incompatível com a renda atual do quiosque.

Mesmo formalizada, com CNPJ, alvará e cessão de direito, Luísa relata que a burocracia pesa de forma desproporcional sobre pequenos comerciantes. Após a pandemia, sem ter sido informada sobre isenções concedidas pelo GDF, ela acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 4 mil em taxas e tributos. Para conseguir a renovação da licença de funcionamento, foi obrigada a quitar integralmente o débito, comprometendo ainda mais uma renda que depende quase exclusivamente do funcionamento do quiosque aos sábados, domingos e feriados, além de uma pensão mínima deixada pelo marido, falecido em 2002.

Apesar das dificuldades, o Praia de Itapoá segue sendo referência gastronômica. O cardápio inclui carne de sol com mandioca frita, feijão tropeiro, costelinha de porco, mocotó, sarapatel, além de peixes, camarão e petiscos tradicionais. Muitos clientes levam os pratos para casa, tamanha a procura. “Tem gente que vem de longe buscar”, conta Luísa, orgulhosa.

O nome do quiosque segue o padrão adotado quando os espaços foram criados, todos batizados com nomes de praias brasileiras. Embora piauiense, Luísa ficou com Itapoá, referência baiana, o que lhe rendeu o apelido carinhoso de “baiana” entre os frequentadores da feira.

Aos 70 anos, Luísa segue trabalhando com a mesma disposição de décadas atrás. Carrega caixas, organiza o espaço, conversa com clientes e mantém o quiosque funcionando ao lado da filha, que também a auxilia nos cuidados com a saúde. “Se eu parar, eu envelheço”, resume.

Mais do que um ponto comercial, a Praia de Itapoá se consolidou como um espaço de convivência, memória e resistência. Sua história expõe não apenas a trajetória de uma mulher trabalhadora, mas também os desafios enfrentados por comerciantes tradicionais diante da burocracia, da precarização da infraestrutura pública e da ausência de políticas efetivas de apoio à economia popular da Feira do Guará.

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