Folha do Guará

OPINIÃO- Faculdades de Medicina: Quando o Lucro ameaça a vida

Por Hélio P. Leite, advogado, que foi o primeiro administrador do Guará, no período de 1973 a 1974. Segundo registros do Diário Oficial do Distrito Federal da época ele foi responsável pela implementação do projeto de construção da sede definitiva da Administração Regional, pela regularização da feira-livre e pela conclusão da Unidade de Vizinhança.

A Abertura desenfreada de faculdade de Medicina no Brasil deixou de ser, há tempos, apenas uma política de ampliação do acesso ao ensino superior. Transformou-se em um negócio altamente lucrativo, movido por mensalidades elevadas, forte demanda social e interesses econômicos que, não raras vezes, se sobrepõem à qualidade da formação médica. O resultado desse processo começa a preocupar especialistas, gestores públicos e, sobretudo, pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

É inegável que o Brasil necessita de mais médicos, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros. Contudo, quantidade não pode substituir qualidade. Medicina é uma das formações mais complexas e sensíveis existentes, pois lida diretamente com a vida humana. Quando cursos são autorizados sem infraestrutura adequada, hospitais-escola, corpo docente qualificado e campos de prática suficientes, o risco deixa de ser abstrato: ele se materializa no atendimento ao paciente.

Nos últimos anos, multiplicaram-se relatos de escolas médicas que funcionam sem condições mínimas para o ensino prático. Falta de leitos, ausência de preceptores experientes, internatos improvisados e avaliações pouco rigorosas compõem um cenário preocupante. Forma-se, assim, um contingente de profissionais com lacunas técnicas, insegurança clínica e fragilidade ética – médicos que, inevitavelmente, acabarão atuando no SUS, principal porta de entrada da população mais vulnerável aos sistema de saúde.

O impacto é direto e perverso. O SUS, já sobrecarregado, passa a absorver médicos mal preparados, expondo pacientes a erros evitáveis, diagnósticos tardios e condutas inadequadas. Cria-se um paradoxo cruel: o sistema precisa de profissionais, mas recebe, muitas vezes, profissionais que não tiveram formação compatível com a responsabilidade que lhes é atribuída.

Falar em “caos” na medicina brasileira talvez ainda seja um exagero. O pais mantém escolas tradicionais de excelência, centros de pesquisa respeitados e profissionais altamente qualificados. No entanto, os sinais de deterioração são claros. Se o atual modelo de expansão continuar sem freios, fiscalização rigorosa e compromisso ético, o risco de colapso deixa de ser uma hipótese distante para ser uma ameaça concreta.

O problema central não esta na expansão em si, mas na fragilidade da regulação e da fiscalização. Autorizações concedidas com critérios políticos ou econômicos, avaliações formais que não refletem a realidade dos cursos e a ausência de mecanismos eficazes de aferição da competência profissional compõem um quadro alarmante. Em um país que leva a sério a saúde pública, isso seria inadmissível.

Medidas urgentes precisam entrar na agenda nacional: revisão dos critérios para abertura de novos cursos, reavaliação rigorosa das faculdades já existentes, fortalecimento do internato e da residência médica e um debate honesto sobre instrumentos nacionais de avaliação e proficiência. Acima de tudo, é preciso recolocar a saúde pública e a vida humana acima do interesse comercial.

Transformar a formação médica em produto de mercado é um erro estratégico e moral. Quando o lucro dita as regras e a qualidade fica em segundo plano, quem paga o preço é o paciente – muitas vezes com a própria vida. Se nada for feito, o que hoje é alerta pode, amanhã, se tornar um fracasso sanitário e civilizatório.

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