2025: a cultura do Guará entre a superexposição de eventos e o colapso das políticas públicas

A retrospectiva cultural de 2025 no Guará não permite leituras ingênuas. O volume de eventos realizados ao longo do ano foi expressivo, diverso e, em muitos momentos, vibrante. Festas populares, shows, feiras, encontros comunitários, ações formativas, eventos infantis e manifestações espontâneas ocuparam ruas, praças, feiras, quadras e equipamentos públicos. No entanto, quando esses eventos são analisados em conjunto, o quadro que se forma é menos festivo e muito mais preocupante: a cultura do Guará avançou apesar da política pública, e não por causa dela.

O ano escancarou um modelo de gestão que confunde política cultural com agenda de eventos, planejamento com inauguração simbólica e direito cultural com espetáculo pontual. A cultura foi utilizada como instrumento de visibilidade administrativa, enquanto problemas históricos permaneceram intactos — ou, em alguns casos, agravados.

A cultura como vitrine eleitoral permanente

Grande parte das ações culturais de 2025 esteve concentrada em períodos estratégicos, especialmente durante as comemorações do 56º aniversário do Guará. Nesse intervalo, a cidade recebeu uma enxurrada de eventos: Circula Cultura, Festival Expomix, Sambão de Aniversário, Guará Fashion Day, Feira de Orquídeas, edições especiais da Rua do Lazer, feiras de artesanato, apresentações da Orquestra Sinfônica, atividades esportivas com atrações culturais, desfile cívico e o tradicional corte do bolo.

O problema não foi a realização dos eventos em si, mas a lógica que os sustentou. Tudo aconteceu de forma concentrada, inflada e publicitária, sem continuidade e sem diálogo com uma política cultural permanente. Passado o período comemorativo, a presença institucional rareou, revelando que a cultura serviu como vitrine temporária, não como compromisso duradouro.

A nova Biblioteca Pública foi entregue como símbolo de modernização. Contudo, rapidamente ficou evidente que a mudança foi mais arquitetônica do que política. Faltou um projeto estruturado de incentivo à leitura, formação de público, programação contínua e integração com escolas, coletivos literários e iniciativas comunitárias. A biblioteca mudou de endereço, mas não de lógica.

Eventos populares: potência social ignorada pelo Estado

O calendário junino foi um dos pontos altos do ano. O São João do Guará, reafirmou a força das tradições nordestinas, reunindo quadrilhas, artistas locais, gastronomia e grande público. O Circuito Padroeiro Centro-Oeste ampliou o alcance das festas para diferentes bairros, enquanto projetos como o Raízes do Sertão reforçaram a presença da cultura popular no cotidiano da cidade.

Ainda assim, essas manifestações seguem tratadas como eventos sazonais. Não há política permanente de fomento às culturas populares, nem reconhecimento efetivo de seu papel estruturante na identidade do Guará. O poder público aparece para a foto, mas não constrói continuidade.

Feira do Guará: resistência cultural sob ataque


Ao longo de todo o ano, a Feira do Guará manteve-se como o principal espaço de circulação cultural da cidade. Rondas de samba, reggae, encontros de DJs, eventos gastronômicos, manifestações solidárias e ocupações espontâneas aconteceram quase semanalmente. O Guará Sound System Party reafirmou o território como referência histórica do reggae e da cultura sound system no Distrito Federal.

Nada disso, porém, ocorreu por política pública estruturada. Pelo contrário: a feira viveu sob constante tensão administrativa, tentativas de descaracterização e ausência de garantias institucionais. A cultura ali existente sobreviveu por resistência comunitária, não por reconhecimento do Estado.

Formação cultural e ações comunitárias invisibilizadas

Eventos como o Brasília Festival Capoeira e a Caravana Cultural do Comitê de Cultura do DF, realizados na Casa da Cultura, mostraram o potencial formativo e educativo da cultura. Oficinas, rodas de capoeira, grafite, batalhas de rima e exposições demonstraram que há demanda e público para ações contínuas de formação cultural.

No campo comunitário, eventos como o Lazer Cultural das Antigas, suas edições natalinas, a Feirarte da Amizade, o Um Sonho de Natal, o Festival da Alegria, festas em quadras residenciais e ações infantis reforçaram o papel da cultura como elemento de convivência social. Essas iniciativas, amplamente registradas pela imprensa local, raramente aparecem no discurso oficial como parte de uma política cultural legítima.

Equipamentos culturais: maquiagem urbana e abandono histórico

O discurso oficial celebrou avanços na infraestrutura cultural, mas a realidade foi menos animadora. A Casa da Cultura do Guará foi reformada e reaberta, o que representa um ganho importante. No entanto, esse avanço é imediatamente neutralizado pelo abandono da antiga Casa da Cultura, que segue em ruínas, sem qualquer projeto de preservação, restauro ou reaproveitamento. O recado é claro: memória cultural não é prioridade.

O Teatro de Arena do Guará, um dos símbolos históricos da produção cultural local, passou apenas por uma reforma parcial, incapaz de resolver problemas estruturais, técnicos e de acessibilidade. O mesmo ocorreu com o Teatro do Guará, que segue subutilizado após uma intervenção incompleta. Fora do eixo central, o Espaço Cultural Monteiro Lobato, no Lúcio Costa, permaneceu completamente abandonado durante todo o ano, escancarando a desigualdade territorial no acesso à cultura.

O saldo de 2025: cultura sem política, eventos sem legado

Ao integrar todos os eventos realizados em 2025, o diagnóstico se impõe: o Guará viveu um ano de intensa atividade cultural, mas saiu dele sem uma política cultural fortalecida. Houve festa, houve público, houve produção — mas não houve planejamento, escuta social, preservação da memória nem compromisso com a sustentabilidade cultural.

A cultura foi usada como cortina de fumaça para ocultar reformas pela metade, equipamentos abandonados e decisões adiadas. O Estado preferiu multiplicar eventos a enfrentar os problemas estruturais.

O Guará provou, mais uma vez, que sua cultura é forte, diversa e resistente. O que falta não é produção cultural; é gestão pública à altura dessa produção. Enquanto a cultura continuar sendo tratada como vitrine e não como direito, a cidade seguirá acumulando agendas cheias e políticas vazias — celebrando o presente enquanto abandona o futuro e apaga o passado.









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